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Passos N.135, Março 2012

LEITURAS / CHARLES DICKENS

Rumo à casa

por Luca Doninelli

Dois séculos atrás nascia um dos maiores narradores da história da literatura mundial. Mas por que o seu modo de narrar continua sendo atual? A resposta está na combinação de dois mistérios. Que só um gênio consegue realizar



A lembrança dos duzentos anos do nascimento de Charles Dickens nos oferece não somente a ocasião para falar de um dos maiores romancistas da história, mas também e sobretudo para refletir sobre o significado de uma palavra e de um gesto cujo sentido, apesar das aparências, nos é cada dia mais estranho.
Dickens foi, para a cultura anglo-saxônica (mas não só), o narrador por excelência. Mas o que é um narrador? O que significa narrar? Não é uma questão para professores de português, pois tem a ver com a existência mesma de um mundo, de uma civilização, de uma sociedade. Podemos dizer, sem medo de exagerar, que onde não há narração também não há civilização.
A narração tem a ver com a política, com a economia, com as finanças, com a sociedade, com a história. Ela é o fio que liga a consciência humana a essas coisas, tornando-as legíveis, compreensíveis.
Mas há outro aspecto fundamental: essa legibilidade, essa transparência do mundo e da história na narração não é coisa para alguns poucos intelectuais, para os sabichões, para os editorialistas e os comentaristas – enfim, para os mediadores entre a nossa pobre vida, de um lado, e os indecifráveis desígnios do Fato, do outro – que enchem os estúdios televisivos e ocupam os primeiros lugares nas listas dos best-sellers.
Nenhuma mediação: a narração existe se houver um povo, porque está ligada ao povo, expressa o seu ponto de vista, o seu pensamento, a sua vida. Hoje, o romancista (e muitos deles são bons, de fato) está mais ligado ao entretenimento. Seu trabalho se compara ao da TV, cuja característica principal é entreter o espectador.
O romance, hoje, é avaliado sobretudo por sua capacidade de entreter. Se oferece conhecimentos, trata-se de conhecimentos parciais, o que sobra da montanha de informações oferecidas pelos jornais, pela TV, pelo rádio, pela internet, pelas redes sociais etc. As pessoas compram um romance para se divertir, para experimentar sentimentos, para se evadir do corre-corre diário, não para conhecer.
Os romances de Dickens – como os de Dostoiévski, de Tolstói, de Balzac, de Victor Hugo e de muitos outros –, ao invés, apostam na capacidade de narrar, não tanto de informar, mas de oferecer conhecimentos que reflitam o juízo, a inteligência, a consciência do povo. David Copperfield, Oliver Twist ou A pequena Dorrit – para citar três obras-primas de Dickens – não constituem só um ponto de vista sobre a sociedade inglesa e as suas injustiças, mas refletem a sensibilidade com que o povo inglês vivia essas injustiças, encontrando aí causa de desespero mas também motivo de esperança.

CONFIANÇA NO HOMEM. Quase toda a produção do grande escritor se desenvolve segundo uma modalidade hoje inconcebível: a publicação periódica. Os romances saíam em fascículos, de modo que as partes iniciais já estavam impressas e de posse dos leitores quando o escritor ainda não sabia como a história terminaria. Isso explica o andamento frequentemente pouco linear, as complicações da trama, a confusão de histórias secundárias que se descolam do eixo principal e não retornam mais a ele. O romance dickensiano não é uma forma completa, um universo bem medido segundo os cânones da estética clássica: se um personagem secundário desperta a atenção do público, ou fica bem resolvido na caracterização, passa de secundário para principal, o escritor demora-se sobre ele, deixa-o mais em evidência, e assim por diante.
Na idade adulta, Dickens se tornou inclusive editor dos próprios romances fasciculados, transformando a própria capacidade narrativa em empresa econômica: sinal da perfeita identificação entre narração e ação: a sua obra (no sentido concreto do termo, portanto sucesso econômico, business) é feita da mesma matéria de que são feitas as vidas que narra.
Em 1836, aos 24 anos, o jovem Dickens, frequentador de teatros, jornalista judiciário, mas já renomado humorista (sob o pseudônimo Boz), publicou a primeira das suas obras-primas, os cadernos póstumos As Aventuras do Sr. Pickwick. Embora o gênero humorístico tenha sido quase que abandonado pelo grande escritor, As Aventuras do Sr. Pickwick continua sendo um texto fundamental para a compreensão de toda a sua obra. Nas aventuras de Mister Pickwick e dos seus bizarros amigos, temos, de fato, o retrato de uma Inglaterra ingênua, pura: capaz de dureza e de crueldade, mas também animada por uma profunda confiança no homem.
Essa generosidade – que se encontra também no célebre Um Conto de Natal – é como que uma nota de fundo que, na obra posterior, estará sempre presente, não obstante a crueldade dos temas e o cinismo da sociedade industrial do século XIX, com o qual o romance dickensiano sempre se defrontará. Num mundo em que a única dimensão do homem parece ser, inexoravelmente, a social – com todas as limitações que essa redução comporta – o homem dickseniano é um homem que busca, por assim dizer, o caminho de casa. O homem não é só um animal lançado por acaso no mundo, que empregará todos os seus recursos na tentativa de permanecer de pé em meio às borrascas da vida: há nele uma nostalgia operosa, a consciência de ter sido feito para algo maior.
Poder-se-ia falar também, sem forçar demais, de filigrana bíblica. Em David Copperfield (1850), o romance mais famoso de Dickens, a saída do jovem órfão David da casa onde nasceu, depois do segundo e desastrado casamento da mãe, parece a expulsão do Éden (embora aqui o pecado original esteja justamente na ausência do pai, o que torna impossível qualquer observância de sua lei). No entanto, enquanto abraça pela última vez a velha reclamona e muito amada doméstica Peggotty – que no ímpeto do abraço perdeu diversos botões da blusa –, ele sabe que esse laço é para sempre. E recolhe um daqueles botões e o mete no bolso, como se dissesse: um dia eu voltarei, e devolverei o botão.
Autobiografia romanceada, David Copperfield une uma extraordinária veia criativa com uma impiedosa, realista e antirromântica leitura da realidade social. A positividade do olhar do escritor torna-o capaz, ao mesmo tempo, de expressar a amargura e o desgosto; a beleza lhe dá a coragem de olhar a feiúra sem precisar eliminar nada.

GALERIA DE HOMENS. A sociedade industrial mostra assim todas as suas faces ao implacável escritor, cada vez mais amado por centenas de milhares de leitores, que se reconhecem nele. Já em Oliver Twist (1837), aos 25 anos, Dickens apresentou a figura de um jovem bom, jogado pelo destino no submundo de Londres, levando uma vida de criminoso. Li esse romance muitos anos atrás, e ainda está viva em mim a galeria impressionante de retratos humanos que ele apresenta. A crueldade, o crime, o entorpecimento humano são a consequência de atos com os quais a liberdade se torna escrava de uma paixão, de um interesse, de um vício: o desespero! ele é a verdadeira brutalidade. Jamais sairemos daqui!, grita o coração corrompido; então, vamos nos embriagar! Ao contrário, a esperança aparece em Oliver como um sentimento sem nome, uma espécie de desorientação, como uma criança que, em meio aos horrores e à confusão do mundo, não sabe para onde ir, mas sabe que existe esse lugar que está procurando. Para ele, o ódio e o rancor constituem sentimentos incompreensíveis, artificiais.
Encontramos a mesma pureza num outro romance, em parte autobiográfico, A pequena Dorrit, cuja protagonista, Amy, nasceu na famigerada prisão Marshalsea (onde o próprio pai de Dickens esteve recluso): é o lugar para onde são mandados os devedores insolventes.
A família de Mister Dorrit vive ali para ficar perto do pai, William, preso por causa de uma conduta pouco prudente nos negócios. Aos poucos, essa filha se tornará o arrimo do pai e será mesmo a protagonista da sua libertação, obtendo uma rica herança que permitirá ao pai sair de Marshalsea e recomeçar a vida.
Mas, uma vez livre William assume as atitudes do homem rico e superficial que sempre foi. Se a humanidade floresceu na miséria, a riqueza a faz regredir. O ambiente mundano no qual o velho quer introduzir a filha é estranho a ela – ela, a filha de Marshalsea –, e o homem que o pai lhe destinou como marido não lhe agrada. Ela termina voltando à prisão para casar com o homem que sempre amou e que, já doente, foi preso depois de ser vítima de uma fraude.
Aí, os personagens crescem em intensidade humana na medida em que são empurrados para as margens de uma sociedade que se baseia apenas no dinheiro. Amy encontra entre os párias a verdadeira natureza humana, que não nasceu para dispor de si (como crê ilusoriamente o homem rico), mas para se doar.
Nesse grande gênio, no qual a Inglaterra se reconheceu como em nenhum outro autor depois de Shakespeare, na narrativa das aventuras humanas, na escavação por dentro das biografias, se une aquela narrativa, aquela capacidade de ler o mistério da história em relação ao mistério do eu, do qual hoje sentimos saudade.

SINAL E MISTÉRIO. A Odisseia, a Bíblia, a Divina Comédia, Guerra e Paz, Os irmãos Karamázov são outras etapas de uma imensa narração que é o sinal distintivo da nossa civilização. Ao numinoso, ao imaginoso, ao sagrado entendido como aura, a nossa civilização tem sempre preferido a narrativa dos fatos, o seu nexo profundo, a que damos o nome de Mistério. E é sobre a existência desse nexo (ou sobre sua ausência) que se desenvolveu a sua dramática aventura, que continua. Por isso, também a sua narração precisa continuar.



Vida e obras

Charles John Huffnan Dickens nasceu no dia 7 de fevereiro de 1812 em Portsmouth, no sul de Londres. Em 1824, seu pai John foi preso por dívidas e o pequeno Charles foi obrigado a trabalhar em um barracão, onde colava etiquetas em caixas de sapatos. Esta experiência foi fecunda para sua produção literária. Em 1825, voltou a estudar na Wellington Academy, mas por pouco tempo, pois as restrições econômicas o obrigaram a trabalhar como mensageiro em um escritório de advocacia. Depois, tornou-se cronista parlamentar e, enfim, jornalista na Law Courts dos Doutores. Em 1835, casou-se com Catherine Hogarth com quem teve oito filhos. Foram os anos do sucesso literário: Oliver Twist, As Aventuras do Sr. Pickwick, David Copperfield foram além dos confins ingleses e chegaram ao continente europeu e ao americano. Em 1842, foi justamente para os Estados Unidos, onde se interessou pelo sistema carcerário. Em 1844, estabeleceu-se em Gênova, na Itália, mas em seguida se transferiu para a Suíça e para a França. No ápice de sua fama, em 1855, apaixonou-se pela atriz Hellen Teman e, por causa dela, deixou a esposa. Em 1867, voltou aos Estados Unidos, mas adoeceu gravemente. Em 1869, começou a escrever O Mistério de Edwin Drood, que permanecerá incompleto: complicações pulmonares e uma hemorragia cerebral o levaram à morte no dia 9 de junho de 1870. No dia 14 de junho, foi levado à Catedral de Westminster e foi sepultado na ala dos poetas.


 
 

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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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