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Passos N.137, Maio 2012

RUBRICAS

Cartas

O CORAÇÃO INQUIETO E O DESPERTAR DO EU
Após a assembleia da comunidade com o Bracco, senti o coração pleno, e fiquei pensando que é o mesmo que também João e André sentiram quando passaram aqueles momentos com Cristo. Vivi uma explosão de alegria e mais uma vez foi como se eu estivesse encontrando o Movimento pela primeira vez, tamanha alegria que meu coração carregava. Junto com a alegria veio a certeza de que isso nunca vai deixar de acontecer em minha vida, esse reacontecer de Cristo, esse olhar amoroso de Cristo sobre mim. Quando as coisas pareciam acomodadas, de repente, um dia vivido como aquele me provoca de tal maneira que é impossível não voltar para casa e fixar o olhar sobre meu marido e meus filhos sem me lembrar desse olhar amoroso de Cristo para mim. Eu sou mãe e esposa como tenho sido nos últimos anos, mas hoje sou mãe e esposa que carrega o olhar de Cristo sobre mim. Os nossos problemas não foram resolvidos nesses dias, mas também foram invadidos por esse olhar amoroso. Esse olhar amoroso de Cristo por mim eu percebi, primeiro no modo como fui ajudada por Otoney, Emílio e Inácio a esperar por esses dias; depois, ouvindo as palavras de Bracco que refletem uma humanidade viva que não se cansa de fazer o trabalho que Carrón nos propõe, no olhar paternal de Julián e na vivacidade de Cleuza, e por último pelos testemunhos dos amigos da comunidade que também aceitaram o desafio de fazer a verificação da hipótese de Cristo e da fé. Gostaria de contar também que vi outros amigos que poderiam apresentar todas as desculpas possíveis para não participarem do gesto por estarem passando por grandes dificuldades, mas apostaram na atração que experimentam quando o Movimento faz uma proposta bonita, e chegaram ao encontro com um rosto e no final do dia tinham outro. Quando dou as minhas aulas espero olhar para os meus alunos carregando essa certeza, de que Cristo nos ama e nos quer atrair para Ele.
Silvana, Salvador (BA)

A CERTEZA DE SER ESCOLHIDO
Mesmo após tantos fatos impressionantes que me aconteceram nos últimos meses: a casa nova, o sucesso da cirurgia da hérnia de disco, as boas perspectivas no trabalho, testemunhos de amigos e outras atividades do Movimento, a minha humanidade não estava despertada. Ao participar do retiro de Páscoa de CL entendia muito bem o que é cair, pois tudo que me aconteceu não me comoveu. O que me comoveu foi estar ali, me comoveu porque nem sequer me dava conta desse cair. Isso me deixa triste por um instante, mas felizmente também não escolhi as trevas e, por isto, digo que na verdade estou muito feliz, porque reconheço que também fui escolhido por Cristo. Fui escolhido para ter a amizade de vocês. E posso dizer que tenho a certeza de que Ele não me abandona, mesmo quando eu não me lembro Dele.
Gualter, Aracaju (SE)

UM POUCO MAIS MARIA E UM POUCO MENOS MARTA
Caro padre Carrón, em outubro eu e meu marido nos mudamos da Itália para Pasadena, na Califórnia. Em janeiro, trabalhei como voluntária no New York Encounter. Saí de Los Angeles com um pensamento muito claro: “Estou em casa sozinha – meu marido estava fora para sua semana de trabalho no observatório –, tenho tempo para oferecer e algum talento, vou colocá-lo a serviço”. Porém, depois, durante a viagem me veio um pensamento que não sai da minha cabeça há alguns meses. Dei-me conta de que sou como a Marta do evangelho, no papel positivo de quem sempre se oferece para servir, fazendo com que as coisas funcionem bem, mas também no papel negativo de quem, com a desculpa de “você não vê quantas coisas há para fazer”, perde a melhor parte. Dei-me conta de que essa decisão normalmente é simplesmente o caminho mais fácil, escondo-me atrás das coisas a fazer para não enfrentar os relacionamentos, as discussões. É muito mais simples “fazer” do que “ser”. Assim, propus a mim mesma ser mais Maria que Marta e, em parte, eu consegui. Mais de uma vez tive a tentação de ir até a cozinha, mesmo não sendo o meu turno, para “dar uma ajuda”, em vez de ir visitar uma exposição em inglês ou começar uma conversa. Por sorte, minha oração silenciosa foi respondida por meio de um amigo, que me disse “Venha comigo”, ou outro que não me largou até saber todos os detalhes do que eu estava fazendo na vida. A outra coisa bonita que me aconteceu foi que eu realmente encontrei alguém. Explico: pela primeira vez, conheci alguém que não é do Movimento, alguém que estava ali por causa do evento, alguém interessado em saber o que estava acontecendo. Isso nunca tinha me acontecido em anos trabalhando no Meeting de Rímini. Aqui, é realmente missão, no sentido pleno do termo. Eu, pessoalmente, troquei duas palavras com um jovem que tinha se convertido ao catolicismo há um ano, tendo sido evangélico e anti-católico a vida inteira, e nos dizia que agora estava feliz e que tinha descoberto como era bonito estar na Igreja. Depois, tive uma breve conversa com um padre que disse estar muito agradecido por poder encontrar todos esses “jovens tão vivos e felizes com a vida”, e impressionado, sobretudo, com os italianos. Foi cansativo e implicou uma despesa que não foi pequena. Estive em Nova York, e era como se estivesse na minha cidade natal; uma vez, naqueles três dias, precisei apenas atravessar uma rua que separava o hotel e o lugar onde estava acontecendo o Encounter. Eu cortei cebolas e tomates e servi cafés americanos. E voltei para casa contente. Se eu contar isso a alguém que não tenha ido ou que não sabe o que quer dizer um evento assim, vai achar que eu sou louca.
Cristina, Pasadena (USA)

A EXPERIÊNCIA DO ACAMPAMENTO 2012
Para mim, o acampamento foi todo ótimo. Por que, “assim”...: Faziam uns 4 a 6 anos que não ia... E tudo para mim, quando cheguei lá, era uma maravilha (eu dizia): “Olha ali tem banheiro, aquele banheiro. Nossa, é assim!”; “Oh, tem um espelho ali no meio!” Tudo para mim, eu achava uma surpresa. Até um simples espelho que estava ali, no meio... No começo, quando eu cheguei lá, estava muito cansada. Apesar de a viagem ter sido curta e divertida foi cansativo. Mas, quando passamos pelo morro, já há menos de 1 km do acampamento, e avistamos lá embaixo... O meu pai gritou: “gente, gente, olha!” E a gente olhou e estavam já todas aquelas barracas montadas e no meio uma tenda enorme. Eu já fiquei toda entusiasmada. Um pouco pra frente, a gente chegou. E fomos, pouco a pouco, ‘catando’ as malas – naquele calor todo, descemos aquela rampa gigante. Aí, nesse começo, me deu uma desanimada. Meio assim...: de ver que não tinha quase ninguém no início (chegamos um dia antes do dia normal). Ao todo, eu pensei que ia ficar excluída. Porque minhas amigas e amigos já tinham ido ao acampamento mais vezes e se enturmado mais – já tinham conhecido várias pessoas novas e assim (pensei), podiam me deixar de lado. Mas, o que aconteceu eu não esperava e foi completamente “nada do que eu pensei”... Justo as pessoas que eu pensei que iam me deixar de lado (Bia, Aninha, os irmãos Cacá e Pepê), foram que ficaram mais comigo! Além de também me levarem, para conhecer novas pessoas. Durante todo o acampamento, aonde um ia o outro ia, ficamos juntos! A frase do acampamento: “Onde está a Beleza” era uma afirmação, segundo o Marquinho. Mas, para mim, era impossível falá-la sem ser como uma pergunta. E, ao longo dos dias, fui tentando respondê-la. E quando acordava e olhava para tudo, sempre me fazia uma resposta diferente. Mas, no dia da primeira caminhada, acho que me dei a resposta certa: a beleza no acampamento não precisava ser procurada, pois ela estava bem debaixo do nosso nariz. Estava nos atos das pessoas que fizeram o acampamento; nos detalhes... O que me fez lembrar o que minha mãe sempre fala: “a beleza não está só na aparência, está também (principalmente) nos atos”. E eu percebi isso, no acampamento. Nas pessoas que chegaram antes para já montar algumas barracas (para os outros); na atenção de pôr um chuveiro, e (de novo) um espelho (nossa eu falei do espelho meu testemunho inteiro)! Achei a beleza na companhia que meus amigos me fizeram! Na ajuda que as pessoas se deram ao longo da preimeira caminhada. No modo como todo mundo estava ali, reunido no lago – cantando e se divertindo juntos. Achei a beleza no próprio lago e no riacho onde tomávamos banho todos os dias, apesar de ser “congelado”. Foi boa a experiência! Até a comida... Do jeito e com o carinho que a fizeram. Inclusive, era deliciosa! A segunda caminhada que eu, literalmente, chorei para ir... Mas, acabei ficando e jogando “pif e rebatendo toques de vôlei” com a Cacá e o Felipe. Foi bom!
Enfim... Tudo isso foi, realmente, uma beleza para mim!
Luísa, Belo Horizonte (MG)

“O NOSSO CASAMENTO: UM PRESENTE SURPREENDENTE”
Caro padre Carrón, eu e as minhas filhas Elena e Anna vimos agradecer a mensagem que enviou à comunidade de Imola, por ocasião do falecimento da nossa Laura. Pessoalmente, está me ajudando a viver este momento de dor e a fazer memória da nossa relação com Cristo, tal como a vivemos nestes anos de casamento e que agora, mais do que nunca, me sustenta e não me deixar sentir sozinho. Só o Eterno, vislumbrado e amado na realidade, mesmo na mais dolorosa e inesperada, me permite viver e torna mais vivas as relações com os amigos, com os colegas, fazendo-me descobrir uma profundidade inesperada em cada um deles. Aos que me perguntam como consigo viver, a única coisa razoável de que falo, e de que posso falar, é do encontro com Cristo, aqui e agora. Envio-lhe o texto que li no final da missa da Laura: “Não existem palavras, a não ser as da experiência, a não ser aquelas livres, afeiçoadas e razoáveis do nosso cotidiano juntos, aquelas que lutam para não reduzir o nosso desejo infinito de ternura, de felicidade, de vida. A nossa vida juntos começou com o desejo de nos afeiçoarmos um ao outro, de experimentarmos a liberdade do ser, que só quem deseja o bem para si mesmo experimenta. Tal como o filho pródigo, todos os dias nos aventuramos, cumprimentando-nos, nas nossas vidas; e à noite, falamos do trabalho, dos encontros, dos imprevistos e confrontamo-nos até encontrarmos uma razão válida para que tudo, desse dia, seja razoável. E a razoabilidade da noite, a colocamos à prova no dia seguinte, para vermos se é verdadeira ou não, e assim todos os dias. O nosso casamento é para nós um dom inesperado e surpreendente que, quanto mais o tempo passa, mais nos revigora, nos rejuvenesce e nos faz apaixonar pela nossa vida e pela vida de todos. Por isso a vida eterna não é uma miragem, mas uma perspectiva que começamos a perceber como possível. Estamos conscientes de que todos os dias revivemos o encontro com um amigo desconhecido, que nos escolhe e vem até nós através dos nosso amigos e da realidade que vivemos, que, como nos ensina Dom Giussani e nos explica o padre Carrón, ama a nossa humanidade como ninguém, dum modo tão terno e tenaz, que nos espanta sempre e que agora pedimos para amar cada vez mais chamando-lhe pelo nome: Jesus Cristo”.
Marco, Imola (Itália)

ESCOLHIDA PARA UMA TAREFA
Para mim, trabalhar no Apadrinhamento à Distância da Creche Dora Ribeiro é como ganhar todos os dias um presente. As nossas famílias são um presente, pois é a partir da nossa convivência diária que temos a possibilidade de doar sempre, sem a pretensão de receber algo em troca. É perceber como o nosso problema é pequeno diante da dificuldade e da dor do outro que está ao nosso lado. É se deparar com a realidade que está a nossa volta e não fechar os nossos olhos para ela. Esse trabalho me permite viver de verdade uma amizade que preenche a minha vida todos os dias. Não é um trabalho fácil, porém, é Cristo que nos dá a graça de viver cada dia intensamente. É chegar ao final de um dia fatigante e ter a certeza que valeu muito a pena. E por tudo isso me sinto feliz e grata a Deus por ter me escolhido para esta tarefa.
Flavia, Belo Horizonte (MG)

DE FÉRIAS COM AQUELA “ESTRANHA” COMPANHIA
Somos duas alunas da Universidade Católica de Milão, e fazemos intecâmbio em Moscou. Há algumas semanas, fomos convidadas para as férias organizadas por um dos grupos de Escola de Comunidade, com o tema: “A positividade do real”. Éramos cerca de trinta pessoas, e impressionou-nos logo o fato de que toda aquela gente, oriunda de diversas experiências (católicas e ortodoxas) e não todas do Movimento, tivesse aceitado vir. Era impensável que pessoas tão diferentes pudessem estar juntas. Algumas, por exemplo, não percebiam a razão de gestos como o silêncio durante o passeio no lago congelado, mas mesmo assim aceitavam fazê-lo e, no fim, tornou-se evidente que aquela maneira de estarmos juntos era bonita. Já antes das férias, as dificuldades para estar aqui, graças à ajuda de alguns amigos, tinham começado a se tornar pedido. Nas férias, esta nossa posição tornou-se ainda mais evidente. Ficamos amigas de uma jovem russa que não sabia absolutamente nada sobre o Movimento. Na primeira noite, nos perguntou: “O que é isso tudo?”. Começamos a falar-lhe do Movimento, mas, uma vez que ela não entendia (talvez por causa do nosso russo!), falamos simplesmente de nós, dos nossos amigos. Nos dias seguintes, continuamos a estar juntas: nós, com a nossa necessidade, e ela com o seu desejo de entender, ajudadas por aquela “estranha” companhia que nos fazia gostar mais das coisas: os jogos na neve, o encontro sobre Chesterton, as refeições, os encontros… O que resulta hoje, é uma maior familiaridade com Cristo, que prefere passar através de uma companhia concreta, feita de pessoas tão diferentes entre elas, que nunca teríamos esperado encontrar.
Elisa e Ilaria, Moscou (Rússia)

O DESAFIO É GRANDE, MAS O DOM É MAIOR
Tivemos a graça de receber dois dons: o Gabriel (38 dias), de uma adoção nacional e, depois de cinco anos de espera, o Santiago (14 meses), da Colômbia. Todo o percurso feito – que nem sempre foi fácil – partiu de nos olharmos, marido e mulher, como desejosos e absolutamente incapazes de nos darmos resposta ou de planear os acontecimentos. Aquilo que ficou evidente é a abertura do coração à vontade de um Outro, que nos fez passar de uma condição para muitos considerada como de “pouca sorte” a uma grandeza de correspondência excepcional que provoca arrepios cada vez que pensamos nisso. Provoca arrepios porque é absolutamente evidente que estes filhos nos remetem continuamente para aquilo que é a consistência de tudo, nos chamam a olharmos para Deus como Pai e como resposta ao que o coração deseja, levando a cabo uma enorme tarefa. A evidência disto não está apenas no fato de as coisas correrem bem ou mal, mas antes, no redescobrir como o nosso coração grita continuamente e procura ser correspondido. O abraço dos filhos, o olhar do bem e a absoluta certeza de sermos pai e mãe de algo que não nos pertence, são um chamado fortíssimo para olharmos para a realidade com o pedido de que aquilo que o coração deseja esteja presente e nos acompanhe. É verdade que o percurso “burocrático” obrigatório para a adoção nem sempre é fácil e muitas vezes desencoraja, mas é preciso ter a certeza de que tudo se encaminha para onde deve ir e deve estar, precisamente porque existe um Mistério que não se pode apreender senão confiando tudo de nós e dos filhos que virão. Em tudo isso, continua a ser fundamental a “companhia” dos amigos que embarcaram nesta aventura conosco, com os quais podemos confrontar-nos e a quem podemos pedir conforto nos momentos de dificuldade, para não nos sentirmos sós. O desafio é grande, mas o dom é muito maior.
Stefano e Valentina, Rímini (Itália)

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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