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Passos N.149, Junho 2013

DESTAQUE

O retorno ao confessionário

por Giorgio Paolucci

“Ele nunca se cansa de perdoar, mas nós, às vezes, nós nos cansamos de pedir perdão”. As palavras pronunciadas por Francisco no seu primeiro Angelus, dia 17 de março, deixaram uma marca no coração de muitas pessoas. “Há pessoas que chegam ao confessionário e que começam precisamente com estas palavras, e dizem que encontraram nelas a força para a decisão de se aproximarem do sacramento da reconciliação, talvez depois de anos em que não o receberam”. É uma experiência que fez muitas vezes ao longo destas semanas, monsenhor Gianfranco Meana, desde há seis anos penitenciário-mor da Catedral de Milão, responsável pelos 39 sacerdotes e religiosos que garantem o acesso à confissão, todos os dias, das 7h às 18h30.
Houve quem falasse do “efeito Bergoglio”, que terá multiplicado a frequência da adesão a este sacramento, que muitas pessoas vivem com dificuldade, através daquela repetição da palavra “misericórdia” nas suas intervenções, e através dos gestos simples, marcados pelo acolhimento, que o têm acompanhado. Monsenhor Gianfranco abre os braços: “O meu ponto de vista é totalmente empírico. Posso dizer que nestas semanas notei um aumento, mas pelo amor de Deus, não vamos fazer estatísticas”.

Como Zaqueu. Mas há quem tenha tentado, como o italiano Massimo Introvigne, diretor do CESNUR (Centro de Estudos de Novas Religiões), que fez uma sondagem com uma amostra de 200 sacerdotes: 53% deles confirmam que verificaram um aumento das pessoas que se reaproximam da Igreja ou se confessam, e que citam explicitamente as exortações de Francisco como a razão do seu regresso à prática religiosa. E o aumento de 64% verifica-se particularmente nas confissões. Não são dados para enfatizar, claro. Mas…
“As palavras e gestos do Papa comunicam a certeza de que Deus nos espera sempre, está pronto a vir a nossa casa, como Jesus fez com Zaqueu. Não mede o grau de coerência, não faz inquéritos para prever a nossa conduta, quer o bem de cada um de nós”, diz monsenhor Gianfranco, passeando nas naves da catedral de Milão: “Nestes confessionários, encontramo-nos diariamente com centenas de pessoas: muitos jovens, também por ser tão perto das universidades, pessoas de qualquer estrato e condição social, estrangeiros que aproveitam a presença de sacerdotes que falam várias línguas (até japonês e aramaico), turistas que entram para visitar a Catedral e sentem o chamamento do coração. É uma experiência muito educativa, sobretudo para nós, sacerdotes: torna-se palpável o que significa dizer que o Senhor nos deixa sempre recomeçar, e que nós somos o instrumento para que a Sua misericórdia se torne uma presença que se pode experimentar”.
A biografia de Jorge Bergoglio também é o testemunho de que a confissão pode ser a aurora de uma nova vida. Era o dia 21 de setembro de 1953, ele tinha 17 anos e estava na sua paróquia de San José de Flores, em Buenos Aires. É assim que, no livro Il gesuita, conta o episódio que está na origem da sua vocação religiosa: “Durante aquela confissão me aconteceu uma coisa estranha. Não sei exatamente o que foi, mas me mudou a vida; diria que me deixei surpreender quando baixei a guarda. Foi uma surpresa, a maravilha de um encontro. Pareceu que estavam à minha espera. Esta é a experiência religiosa: a surpresa de encontrar alguém que está à nossa espera. A partir daquele momento, para mim, Deus é aquele que nos precede. Você o procura, mas Ele procura por você em primeiro lugar”. Quando é eleito bispo, como recordação daquele fato, resolve escolher como lema e programa de vida (posteriormente confirmado com o brasão pontifício) Miserando atque eligendo, uma frase de São Beda, o Venerável que, ao comentar o episódio evangélico da vocação de São Mateus, escreve: “Jesus viu um publicano e como o olhou com amor e o escolheu (miserando atque eligendo), disse-lhe: Segue-me”.

Caído por terra, de joelhos. Padre Santino Regazzoni passa oito horas por semana no confessionário da igreja de São Francisco e Santa Maria dos Anjos em Milão, onde há trinta anos vive os seus dias com os frades capuchinhos. “Francisco, o Papa da misericórdia? É verdade que a misericórdia é um leitmotiv das suas intervenções, mas me permito recordar que é, antes de mais nada, um leitmotiv do fundador: Jesus é o ícone da misericórdia. Que, atenção, nem é a correção para os nossos pecados e nem uns tapinhas nas costas de quem fez besteira. Há quem confunda o confessor com o psicólogo, desabafe sobre as coisas que não vão bem ou peça conselhos sobre escolhas a fazer. É claro que podemos tentar dar uma ajuda, mas o que é decisivo é ter a consciência de que o mal que se cometeu não é a última palavra sobre o homem e que o abraço de Deus àqueles que se arrependem oferece a possibilidade de recomeçar. Sempre. Não porque a merecêssemos, mas por causa da superabundância da graça, como nos recorda São Paulo: quem nos separará do amor de Cristo? A cada vez que reconhecemos o nosso limite, vivemos a verdade de nós mesmos. Oscar Wilde tem razão: O momento supremo de um homem é aquele em que cai por terra de joelhos, bate no peito e confessa todos os pecados da sua existência”.

 
 

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