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Passos N.151, Agosto 2013

LUMEN FIDEI / A Encíclica

Sob nova luz

por Costantino Esposito

“Quem crê, vê”. Papa Francisco concluiu o trabalho iniciado por Bento XVI: “Um gesto de testemunho e de fraternidade entre dois homens,” que nos acompanham através de um “caminho do olhar”. Para redescobrir qual é a verdadeira natureza da fé

Lumen fidei, a primeira encíclica do Papa Francisco, pode ser considerada também como a última de Bento XVI, o qual “já havia quase completado sua primeira redação”, assumida depois como própria pelo novo Papa, que lhe acrescentou “algumas outras contribuições” (como ele próprio afirma no n. 7). Esse fato nos diz algo de essencial a respeito de um texto que não é só um documento do Magistério, mas também um gesto de testemunho e de fraternidade de dois homens que verificam na própria experiência a novidade de juízo e de afeição trazida pela fé para a vida. E por isso se tornam uma grande companhia para todos. A fé, para eles, constitui a grande possibilidade de “iluminar” novamente a questão do humano, hoje confusa e desorientada sob tantos aspectos, como o fundo oculto de todas as nossas “crises”, as pessoais e as socioeconômicas, culturais e políticas. Trata-se, por isso, de colocar novamente a pergunta sobre o que verdadeiramente permite que vivamos à altura – infinita – do próprio coração e da própria inteligência. A fé pode, de fato, iluminar a vida? Ou – segundo uma tendência típica da modernidade – ela permanece confinada ao reino da obscuridade?
Na cultura contemporânea, a fé cristã parece presa num laço que ameaça sufocá-la. De um lado, ela é vista como uma bela “ilusão”, a projeção dos nossos desejos insatisfeitos ou a ênfase de um sentimento subjetivo, que talvez seja consolador ou edificante, mas no fim não se sustenta frente às críticas da razão. Porque é um “sentimento cego”, nutrido pelas nossas emoções, mas sem apego ao que é real. Frente à exigência de conhecer mais a fundo a realidade e a si mesmo, como frente à urgência de projetar e de mudar o mundo – típicas do homem moderno que apela com orgulho para a própria autonomia de juízo – o que a fé ainda pode dizer de interessante? A partir do momento em que ela foi reduzida a um espaço em que a razão não pode entrar, a fé “terminou por estar associada à escuridão” (n. 3).
Por outro lado – quase que como o reverso da medalha – a fé é considerada, sim, como um valor positivo, herdado pela tradição cristã, mas é cada vez mais reduzida a um “fato óbvio” (n. 6), talvez usada como estímulo para consequências de ordem moral e política. Só que os pressupostos óbvios geralmente terminam por resultar supérfluos, e a obviedade logo se transmuta em crise. Crise da fé já indicada por Bento XVI como a emergência mais aguda para a Igreja e para toda a sociedade do nosso tempo, e em relação à qual ele convocou, justamente, o Ano da Fé. As motivações ideais e os princípios culturais graças aos quais se desenvolveu toda uma civilização – da ideia de liberdade à identidade inviolável do indivíduo humano, do conceito de bem comum ao de solidariedade, etc – quase se consumiram, como grandes valores que caem na escuridão da insignificância. Tanto de um lado como do outro, pois a fé parece aludir de novo à obscuridade e à cegueira da razão.
Por isso, surpreende-nos o desafio do Papa Francisco em “redescobrir” a verdadeira natureza da fé, em suas razões verificáveis. E mais do que através de uma definição teórica, ele o faz através da descrição de como a fé pode se tornar experiência de vida: “A fé nos abre o caminho e acompanha os nossos passos na história. É por isso que, se queremos entender o que é a fé, devemos referir-nos ao seu percurso, à via dos homens crentes” (n. 8). A característica primária da fé como experiência é a descoberta de uma luz que permite ver: “Quem crê, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque vem a nós como Cristo ressuscitado” (n. 1). E esse percurso é fundamentalmente um “caminho do olhar” (n. 30), cuja lógica é justamente a da descoberta, não da repetição.
A fé percebida como luz – lumen fidei – permite à razão humana um (cada vez mais) novo conhecimento da verdade, que nunca é redutível a algo já sabido (as nossas medidas e as nossas construções), mas acontece como uma “presença” que vem ao nosso encontro, que chama cada um de nós a existir, em todos os instantes. A presença de tudo o que está presente – a nossa pessoa e a dos outros, a natureza e a história, as coisas e os eventos – não é um acaso anônimo, mas um amor pessoal. Na grande história que vai de Abraão até Jesus de Nazaré, aquilo em que cremos – como uma realidade confiável sobre a qual a vida encontra apoio e fundamento – é o amor fiel de Deus, que nos alcança através da realidade, até daquela realidade última que é a morte: também ela, ou melhor, justamente ela, iluminada como a passagem de uma esperança que não decepciona e de uma felicidade que começa a se realizar já no limite e na contradição do viver.

Ver é escutar. De novo, a encíclica enfatiza que a nossa cultura “perdeu a percepção dessa presença concreta de Deus, da sua ação no mundo”, pensando em definitivo que “Deus se encontre só no além, num outro nível da realidade, separado das nossas relações concretas”; ao passo que a fé nos faz perceber “o amor concreto e poderoso de Deus, que opera verdadeiramente na história e determina o seu destino final, amor que se fez encontro, que se revelou em plenitude na Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo” (n. 17).
A passagem do primeiro para o segundo modo de conhecer implica uma verdadeira “transformação do coração”, isto é, do intelecto e do afeto do homem: “A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos:
é uma participação no seu modo de ver” (n. 18). E o que Ele vê é a presença do Pai, isto é, o primado do dom de Deus, que sempre nos precede. Por isso, poderíamos dizer que a verdadeira alternativa à fé não é tanto a descrença ou o ateísmo, mas a idolatria, que consiste “na adoração da obra das próprias mãos”, e por isso “é sempre politeísmo”: não uma verdadeira caminhada, mas o “movimento sem meta de um senhor para outro” (n. 13).
Seguindo o tesouro de testemunho e de pensamento dos Padres – sobretudo do sempre presente Agostinho –, Francisco e Bento sublinham que essa “visão” da fé se apropria da grande exigência de conhecer completamente as coisas, expressa pela filosofia grega, sem, porém, reduzi-la ao mero exercício de um intelecto abstrato, mas encarnando-a na experiência concreta – corpo e alma – das pessoas vivas na história, como é próprio do povo de Israel. Aí o conhecimento, antes mesmo de um “ver”, é um “escutar”, ou seja, é uma relação – no tempo – entre Alguém que fala e o homem chamado a lhe responder. Ver é algo unitário com o ser alcançado por essa Palavra, que com Cristo se tornará o Verbo de Deus feito carne. Daí um terceiro significado da fé, como um “tocar” sensivelmente a presença de Deus que se torna companheiro do homem, e que continua através da realidade materialmente perceptível da Igreja e dos seus Sacramentos.
Nessa sua tríplice dimensão – ver, escutar, tocar (n. 30) – a fé torna presente em definitivo que “o amor precisa da verdade” para ser real e perdurar no tempo, mas que “também a verdade precisa do amor” (n. 27) para conquistar a nossa pessoa inteira.

Razão e liberdade. Mas, por último, entre os muitos pontos que merecem uma leitura atenta dessa riquíssima encíclica, não podemos deixar de mencionar a insistência sobre o fato de que a fé, embora sendo uma experiência pessoal do cristão, jamais foi um ato ou um gesto individualista. Na medida em que “nos torna contemporâneos de Jesus” (n. 38), ela “está destinada a se pronunciar e a se tornar anúncio” para os outros homens (n. 22), um verdadeiro “bem comum” (n. 34). Não podemos crer sozinhos, como não podemos nos batizar a nós mesmos (n. 41), porque a fé é um dom que recebemos – assim como recebemos a existência –, e nos torna unidos na mesma vocação, fazendo de nós um só corpo. Mas isso vale, como testemunho profético, para todos os homens. A “verdade do amor”, conhecida pela fé, “não é verdade que se impõe com violência, não é verdade que esmaga o indivíduo”. E assim fica claro que “a fé não é intransigente, mas cresce na convivência e respeita o outro. O crente não é arrogante; ao contrário, a verdade o torna humilde, sabendo que, mais do que a possuirmos, é ela que nos abraça e nos possui. Longe de nos enrijecer, a segurança da fé nos põe a caminho, e torna possível o testemunho e o diálogo com todos” (n. 34).
Contrariamente ao que hoje a maioria pensa, a fé não se paga ao preço da razão e da liberdade, mas constitui a condição – ou melhor, a estrada – que permite aos homens ser, de fato, racionais e finalmente livres.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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