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Passos N.167, Março 2015

RUBRICAS

As cartas

O OUTRO É UM BEM, ESSA É A ESPERANÇA

Depois do massacre de Paris e da manifestação nas ruas da capital francesa, eis o que escreve uma amiga.

Não fui à manifestação. Iria apenas para propor e defender algo que reconheço como verdadeiro para mim. Não é um problema religioso, porque se fosse feita uma verdadeira pesquisa em relação às próprias questões existenciais, essas coisas não aconteceriam. Mas, como é possível crescer em meio a um deserto humano? Morei em Melun, e a palavra “deserto” é a que mais se adequa. Vi jovens queimarem lixeiras para criar um acontecimento, ou fazerem parte de um grupo de traficantes que se cumprimentam com o sinal do islamismo para não serem inferiores. Precisei tirar os aquecedores das entradas dos edifícios para evitar agrupamentos permanentes, onde a diversão que preenche o vazio e o tédio é assustar os mais fracos e destruir tudo, inclusive a própria casa. Ficam ali porque não sabem para onde ir. Praticamente todos esses jovens são conhecidos da polícia, pois por causa de bobagens ou de fatos mais graves entram e saem dos distritos policiais. Pertencem ao islamismo, mas a um islamismo formal, não a uma religião, não têm nenhuma ligação com as perguntas últimas. Nesse deserto, o mínimo traço ou aparência de solidez de uma ideologia qualquer (já que aquilo de que falamos não é uma religião) os captura literalmente, tal é a sede que possuem e a profundidade de suas necessidades. Isso parece ser um refúgio diante da humanidade em ruína. Uma vez, em um porão, li em um grafite: “Não quero o Paraíso depois que estiver morto, mas aqui na terra”. Lendo esse grito, disse a mim mesma: “Jesus, como te desejam!”. É o mesmo grito do meu coração. Aquilo que nos dissemos na última assembleia do ano passado sobre a preferência me tocou muito. A primeira preferência que percebo sobre mim mesma é a maravilha de ser criada, de levantar-me pela manhã e de existir, de ter esse grito cheio de necessidade no meu coração. É só a partir dessa gratidão que posso olhar o outro como um bem: meu marido e meus filhos, meus vizinhos, os jovens que fazem festa bebendo a noite inteira. No ano passado, fui à Cometa (uma obra de acolhida em Como, na Itália), e voltei mudada. É a segunda vez na minha vida que vejo uma comunhão presente e vivida. Vi a comunhão com Cristo presente, a única coisa capaz de me tornar livre, como indica o próprio nome do nosso Movimento. Graças à Escola de Comunidade, saltou-me aos olhos que a primeira coisa que é preciso viver é a preferência sobre mim mesma, é o meu relacionamento pessoal com Cristo. E não é uma coisa intimista, mas está presente e se faz conhecer através do caminho que Ele colocou diante de nós, a Igreja, e em cada pessoa, porque Ele deu a sua vida e está presente no outro, independentemente da consciência que a pessoa possa ter. Há uma grande violência também dentro de mim, de nós, mesmo que não cheguemos a ponto de cometer massacres fisicamente. Descobrir que o outro é um bem para mim é aquilo de que preciso. É a única esperança que pode nos fazer sair da terceira guerra mundial, que está à soleira da nossa porta.
Elena, Paris (França)

O COMUNISTA E O JANTAR INESPERADO
Gostaria de contar sobre uma amizade imprevista e “impossível” que aconteceu com Lorenzo, professor de um departamento da minha Faculdade. Ele também é italiano e nos conhecemos no elevador. No primeiro almoço, ficou claro para mim que ele tinha o histórico de quem não vê o Movimento com bons olhos: militância na CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho), declaradamente ateu, etc. Assim, decidi esperar um pouco antes de lhe dizer quem eu era. Depois de algumas semanas, ele descobriu que não tenho namorada e, então, me convidou para tomar uma cerveja a fim de me apresentar uma colega de sua namorada que, depois, descobri fazer parte da nossa comunidade. Ele ficou surpreso com o fato de que eu já a conhecia, e entendi que tinha chegado o momento de falar sobre mim. Entre outras coisas, foi muito divertido: “Lorenzo, há algumas coisas que você não sabe sobre mim...”. “Ale, tudo bem, entendi que você é católico, isso não é um problema... Mas não me diga que você é de CL!”. “Lorenzo, não só eu, mas ela também!”. E, assim, descobriu sobre o Movimento e também sobre a minha vocação de Memor Domini. Inesperadamente, aquilo que poderia ser o fim do relacionamento, tornou-se o início de uma amizade ainda mais intensa. Voltando de uma recente viagem, por exemplo, me disse: “Ale, sabe que você me fez falta?” (e era verdade também para mim). Assim, começou a conhecer os meus amigos. Depois da projeção pública de A bela estrada, à qual veio depois de eu prometer que participaria de uma manifestação da CGIL, nós o convidamos para o concerto de Natal e ele, meio sério e meio brincando, nos disse: “Imagine que irei uma segunda vez, depois vocês vão começar a achar que estou me convertendo!”. Uma noite, num jantar com Mark, outro Memor, na hora de pagar a conta, ele nos viu discutir sobre como pagaríamos e logo nos perguntou: “Vocês colocam o dinheiro em comum?”. “Sim”. Então, começou a nos fazer uma série de perguntas sobre como essas coisas funcionam nos Memores Domini. Quando saíamos do restaurante, ele me disse: “Ale, para mim, que deveria ser o comunista, não é de modo algum óbvio colocar o dinheiro em comum com minha namorada... E vocês realmente fazem isso!”. E pensar que talvez quinze anos atrás, se tivesse encontrado Lorenzo na universidade, facilmente o teria tratado ideologicamente, como um “inimigo”.
Alessandro, Montreal (Canadá)

A SURPRESA DE UM CONTECIMENTO
Caros amigos, no sábado passado voltamos à caritativa depois das férias do Natal. Com alguns amigos, fazemos, há menos de um ano, a caritativa num hospital da Santa Casa na periferia Norte de São Paulo, onde Marcelo realiza a sua residência médica. As pessoas que encontramos uma vez por mês são homens que, pelo estado físico, têm muitas dificuldades de se levantar da cama e muitos deles, pelos traumas sofridos, têm também graves problemas de expressão verbal. Vamos para ficar um pouco com eles, conversar com quem consegue e simplesmente fazer companhia a quem tem dificuldades de falar. Muitas vezes, os olhares dizem mais que as nossas palavras. No sábado antes do Natal, tínhamos levado, como nosso presente, a Revista Passos com a belíssima imagem do cartaz de Natal, e muitos deles tinham se comovido pelo carinho. O fato de não conseguir ler não foi um problema para eles, tanto que, depois de pouco tempo, todos na enfermaria estavam com a revista na mão folheando ou lendo de acordo com as próprias possibilidades - uma ótima publicidade para a revista! Para nós, foi uma surpresa e um espetáculo ao mesmo tempo. Porém, a surpresa maior foi que, regressando no sábado, encontramos o senhor Antônio que nos acolheu dizendo com grande entusiasmo: “Finalmente a minha irmã me trouxe os óculos que comprou numa loja aqui perto e agora posso ler a revista” e nos mostrou a Passos, que tinha na sua cama, aberta na página da Coleta de Alimentos e começou a enumerar palavras dos vários artigos que tinha lido até aquele momento. Eu me comovi muito pelo que tinha gerado nele o nosso simples gesto: quem teria imaginado que do gesto de levar a revista para eles pudesse nascer uma tal surpresa para cada um de nós? Jesus sempre nos “primerea”!
Silvia, São Paulo (SP)

A BELEZA QUE SE IMPÕE
Entre os dias 29 de janeiro e 1 de fevereiro, aconteceram as Férias Nacionais dos universitários de CL, em Itanhandu (MG). Este ano, mais do que em todos os outros, eu sentia um desejo muito grande de estar lá, pois trazia no coração uma gratidão imensa por tudo que vinha acontecendo. Pude perceber como o percurso feito desde os Exercícios Espirituais, em maio de 2014, tinha feito com que eu pudesse dar um grande passo em relação à maturidade da fé. Além disso, percebia surgir em mim o desejo de viver mais seriamente o carisma de CL, pois me parecia cada dia mais claro o quanto isso se fazia importante, imprescindível para que eu vivesse a minha vida sem reduzi-la a estado de ânimo, ou reduzi-la a minha medida ou a minha limitação. Ao dar-me conta de tudo que me acontecia, como era tão grande, tão bonito e tão gratuito, percebi, também, que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para compensar tamanho amor por mim... Nem se eu fosse a melhor pessoa do mundo, nem mesmo assim, eu poderia dar algo em troca por todo esse amor que me alcançava. Dessa forma, o sentimento que vi nascer foi somente esse desejo de estar mais perto desse “lugar” que me ama desse jeito, o carisma de CL. Essa gratidão se expressou ainda antes de chegar a Minas: seja numa maior abertura em relação a minha mãe, ou no reconhecimento da importância de certas companhias na minha vida, ou ainda no desejo de viver mais seriamente meus estudos, a fim de que não fossem prejudicados com a viagem. Outro aspecto de grande importância foi a percepção da necessidade que eu tinha de estar lá... Gratidão, mas também necessidade. Percebo como seria fácil para mim (devido ao meu temperamento) dar tudo por óbvio. Seria fácil esquecer-me de tudo que me acontece, de tudo que sou, e com isso reduzir a minha experiência aos meus erros e àquilo que não sou ainda. Porém, cada dia fica mais claro que não é isso que me interessa. Viver essa redução não me corresponde, pelo contrário, me paralisa. Durante as trilhas que fizemos, pude comparar como a minha vida se apresenta da mesma maneira: uma caminhada árdua, mas que, nos momentos mais difíceis, aparece um amigo que me ajuda, e não me deixa sozinha. Mesmo nos momentos mais cansativos, em que achei que não conseguiria, eu recebia ajuda, e justamente ali, eu me dava conta do quanto era bonito caminhar com aquelas pessoas. Vi o quanto é bonito sentir-se amada. Não porque faço isso ou aquilo de bom, mas unicamente porque tem alguém que olha para o meu destino com uma ternura que me comove. Estou muito feliz, pois não foi o cansaço do percurso que me determinou; nem o fato de ter me distanciado de um grande amigo, tampouco por ter tantas dificuldades que se apresentam no meu cotidiano. Mas feliz porque percebo que há uma forma de viver tudo isso, que é no encontro com algumas pessoas, no olhar de amor que recebo de cada uma delas. Percebo que a única forma de viver tudo isso é me deparando com essa “Beleza que se impõe”, como afirmou Alexandre André. Uma beleza a qual, olhando para ela, também o meu caminho se torna mais belo.
Mariane, Aracaju (SE)

EXISTE UMA LIBERDADE SEM VIOLÊNCIA?
Caro Julián, entrei na sala do segundo ano do colegial e perguntei aos alunos se conversaram sobre os acontecimentos de Paris: responderam que sim, com o professor de religião. Imediatamente começaram a fazer um rio de comentários um pouco desconexos e muito intransigentes sobre o direito à sátira e sobre a liberdade de imprensa. Deixeios falar. Bastou, porém, dizer uma frase provocando-os a ir mais fundo, para que o imprevisto acontecesse: eu os vi livres de um estranho desconforto. Aliviados do peso de precisar estar em consonância com chavões e slogans ouvidos nas mídias. Por um instante, o silêncio foi vertiginoso. Quem o rompeu foi uma menina: observou que ninguém tem interesse em lembrar que, na Nigéria, duas mil pessoas foram mortas; um estudante muçulmano prosseguiu, dizendo que se sentiu ofendido pelas charges. Surpreendi-me com a lealdade de que são capazes, a ponto de desmentirem as definições ideológicas ditas antes. Uma menina levantou a mão: “Se a liberdade é a afirmação incondicional de tudo aquilo que quero, então os cartunistas daquele jornal e os terroristas são exatamente iguais”. Tentam buscar uma definição de liberdade que fuja dessa lei, mas sem resultado. Professora, parece que não existe uma liberdade que não seja, também, violência. Olho para eles, e as palavras que você disse ficam evidentes: “O outro é um bem”. Lancei o desafio. Vi-os impressionados, como se vissem as coisas habituais pela primeira vez. Prossegui: “Continuem a olhar com a mesma lealdade de hoje para a experiência que fazem entre vocês: podem encontrar algum sinal de que a pessoa mais distante como cultura, religião, história, é mais do que tudo isso? Conseguem constatar que cada um de vocês tem a mesma exigência de justiça? Se forem leais, poderão entender o que é a verdadeira liberdade”. Em tudo isso, a mais livre era eu: apoiada em Quem está construindo a minha vida agora, que dá um gosto infinito a tudo.
Francesca, Milão (Itália)

 
 

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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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