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Passos N.175, Novembro 2015

TAIWAN

Como os Atos dos Apóstolos

> por Davide Perillo

Chegou num fim de tarde. O portão estava fechado, mas a insígnia embaixo da cruz o marcou: “Sala do Senhor do Céu”, o nome que Matteo Ricci, séculos atrás, encontrou para dizer “igreja”. Fang-Cong foi batizado quando criança, quem sabe como, mas não lembrava nada sobre Jesus. E tinha uma pergunta aguda: seu irmão morrera alguns dias antes e ninguém sabia lhe dizer se o nosso destino é realmente desaparecer no nada. “Tocou a campainha, entrou, começamos a conversar”. Meia hora, não mais, conta padre Emanuel Angiola: “Mas pela primeira vez ouviu falar de Ressurreição e vida eterna”. Desde aquela noite, nunca mais foi embora. “Volta todos os dias e conversamos um pouco”.
Agora está ali, sentado à mesa em uma sala da paróquia São Francisco Xavier, com cerca de vinte pessoas junto com ele. E acompanha a leitura dos ideogramas de Passos de Experiência Cristã, livro de Dom Giussani, no capítulo sobre “O Encontro com Cristo”. “Senti-me acolhido”, diz Fang. Como Helga, que chegou a esta mesa depois de anos de procura nas religiões orientais, que não queria trair porque são da sua tradição, mas “não bastavam”. Ou Giacomo que viu um cristão pela primeira vez no colégio “e, ali, descobri a Bíblia e um caminho para buscar respostas para as minhas perguntas sobre sentido”. Ou, ainda, Bo-Yue, que encontrou o cristianismo estudando história e a primeira coisa que fez foi pedir para se confessar, agora que sabe que “o perdão existe”.
Bem vindos aos Atos dos Apóstolos, versão século XXI. Não estamos em Jerusalém ou Corinto, mas em Taiwan, a grande ilha ao largo da China: 23,4 milhões de habitantes, sendo que mais de 7 milhões vivem aqui em Taipei, a capital. Vendo-a do alto do Taipei101, o edifício que corta o céu com seus 449 metros de altura, é um mar sem fim de casas e cimento. Vista de baixo, um fluxo do mesmo modo infinito de vidas e de trânsito, pequenas lojas e letreiros por todos os lugares. Outra língua, outro mundo, outras confissões. Aqui Jesus é quase um desconhecido. Os cristãos são menos de um milhão, um terço dos quais católicos (1,3% da população). Mas a grande maioria nunca sequer ouviu seu nome. Vê-Lo agir aqui é como estar na Palestina de dois mil anos atrás.

Encontros e comoção. CL já tem uma certa história na ilha, pois algumas famílias italianas vieram para cá a trabalho no final da década de 1990. Depois, vieram os padres missionários da Fraternidade San Carlo. Queriam estar presentes “no continente que ainda não conhece Cristo”, como o chama padre Paolo Costa, que chegou em Taipei em 2002. Primeiro, muita dedicação para aprender a língua, depois, a primeira paróquia (São Francisco Xavier, em Tai Shan). Em 2008, a segunda, São Paulo. Hoje, os padres são três: além de Paolo e Emanuel, há padre Donato Contuzzi, atual responsável do Movimento. Além das atividades na paróquia, todos são professores na Universidade Fu Jen.
É a universidade católica de Taipei, com 26 mil estudantes. No pátio, entre quiosques e grupos de jovens passeando, uma cruz de pedra com quatro ideogramas: “Verdade, bondade, beleza e santidade”. “O desafio é fazê-los descobrir essas coisas”, traduz padre Paolo. Ele dá aulas de italiano. “Não são muitos os alunos e, normalmente, se matriculam porque não têm notas altas o suficiente para escolher as matérias”. Um acaso, mais ou menos. Mas, muitos encontraram Cristo assim.
Na aula, ensina-se vocabulário e gramática. “De vez em quando falo sobre a Bíblia, mostro alguns quadros de artistas, escutamos música”. Aqui, quando padre Paolo leu a poesia de Montale, “desci, dando-te o braço, / pelo menos um milhão de escadas”, e falou sobre a falta, “uma menina começou a chorar”. Ele também ficou comovido. Grande parte da vida do Movimento em Taiwan nasceu nessas salas de aula. Alguns estudantes ficaram curiosos em relação àqueles estanhos shén fù, os padres. Realizaram alguns jantares, encontros, até a revolução, cinco anos atrás, quando um grupo viajou para a Itália e foram ao Meeting de Rímini. “Muitos deles descobriram a fé ali”, conta padre Donato: “Alguns pediram o Batismo, outros, agora, estão na Fraternidade”.
Como Emilia, estudante que não estava naquela viagem, mas de certa forma deve tudo a ela. “Entrei no Facebook e vi as fotos de alguns colegas na Itália. Tinham sorrisos belíssimos. Disse a mim mesma: preciso entender o porquê. E fui procurá-los”. Conheceu padre Lele Silanos e, depois, os outros. Foi atrás, pouco a pouco, dos questionamentos que surgiam: “Quem são estes? Por que estão aqui?”. Chegou a Cristo. E agora deseja que todos os seus amigos “encontrem o caminho para Deus”.
É sempre um contágio, dois mil anos atrás como hoje. Como os jovens que se encontram em uma sala da Universidade para fazer Escola de Comunidade. Ou, aqueles que acabaram de entrar na vida adulta, os “Jovens Trabalhadores”, que se encontram uma noite por semana no escritório onde trabalha Ning, protestante. Ela encontrou CL em Dublin, e esteve em Roma no dia 7 de março na Audiência com o Papa. Agora está aqui e corta a pizza para os amigos; aqueles que já participam há algum tempo, como Violetta e Maria Goretti (muitos assumem um nome ocidental assim que entram em contato com o italiano) e quem vem pela primeira vez, como Cinzia, que trabalha em um Banco e está aqui porque “conheceu Giacomo que foi buscar uma orientação financeira: ficamos amigos e ele me falou deste lugar...”. Ilaria também participa via Skype: vive em Taichung a 180 km daqui com o marido e três filhos pequenos. É uma torrente de relacionamentos, amizades, encontros.

O terço na sacada. No dia seguinte, em outro encontro, ouvir Alecrim em chinês foi comovente. Eles falavam sobre experiência, juízo, razão. Ouvimos A-Long dizer que se dá conta de que “em nosso coração há algo inato que reconhece a beleza: ninguém lhe diz que uma flor é bonita, mas você pode descobrir isso sozinho”. Em suma, vemos Dom Giussani – e, com ele, o cristianismo – ganhar espaço nesse outro mundo. A-Mei diz que “na minha vida há uma grande mudança: quando venho aqui vejo uma verdadeira libertação e uma verdadeira comunhão”. “Lele sempre dizia que no tempo aprenderíamos a beleza da amizade”, lembra Emilia: “Pouco a pouco, estamos vendo que é verdade”.
“É uma vida simples, mas plena”, disse Donato na primeira noite. Tinha razão. Os três padres nos mostram as paróquias, falam dos novos encontros (no ano passado vinte pessoas foram batizadas, quase todas adultas”). E nos acompanham na oração com as famílias. Esta noite será na casa de A-Long. Sobe-se a pé até o quarto andar e os sapatos são deixados fora da porta. Dois cômodos e a cozinha. Cerca de vinte pessoas, talvez mais, rezando o terço na sacada. Depois, se come e se bebe. E se partilha a vida. É possível sentir-se em casa, a dois mil km de distância.
E se faz mais intenso o contragolpe daquilo que vimos na manhã anterior quando, em um intervalo, nos levam ao templo de Longshan e saímos de lá com uma tristeza que dói na alma. Os fiéis chegam aos poucos, cada um com sua sacola de compras cheia de frutas, pães e pacotes de biscoitos. As ofertas devem ser deixadas no balcão grande diante da capela principal onde se venera Guan-yin, deusa budista da misericórdia. Em volta, incenso e velas, estátuas e templos menores, cada um dedicado a uma divindade budista ou tao: uma ajuda nos problemas do trabalho, outra nos estudos, outra protege a família... E uma multidão, em todos os lugares. Um outro mundo. Mas o mesmo coração, a mesma espera de que o Mistério se faça amigo.

Uma vida dentro da vida. A beneficência, aqui, não é conhecida. O que conta é a família, a ajuda é feita entre os parentes e, às vezes, essa rede se alarga para acudir um vizinho em necessidades. Mas que a caridade seja “a lei da vida”, como diz Dom Giussani, é uma novidade total. “Fazemos caritativa desde o início”, explica padre Donato: “Primeiro ajudávamos as crianças a fazerem a tarefa na paróquia”. Coisa jamais vista em um lugar onde quem pode pagar manda o filho fazer aulas de reforço escolar, porque se você não é suficientemente bom para passar no teste para as melhores escolas, você é excluído desde criança. “Ajudar as crianças me lembrava de como eu era”, diz Renato: “Fez-me voltar à inocência que perdi pelo caminho depois que cresci. Mas agora é mais do que isso”.
“Agora”, significa a tarde de sábado que passa em um asilo, distante da igreja quinze minutos a pé entre o tráfego e o caos. Devem ter cerca de trinta idosos internados. Muitos estão em cadeira de rodas, outros não saem da cama. Alguns estão no pátio da entrada e esperam Donato e seus meninos. Passam uma tarde de festa simples: violão, cantos, companhia. Ilaria, que vem a Taipei todos os finais de semana, dança com a pequena Teresa nos braços diante do sorriso sem dentes de uma hóspede. Uma explosão de ternura. “O que levo para casa? Outro dia, quando saía do trabalho, vi um pai tomando sorvete com o filho. Um rapaz grande, mas dava para perceber que tinha problemas. O pai o ajudava a comer. Bastava olhar para ele para entender que amava o filho sem limites. Sem condições. Fiquei comovido. Porque eu quero amar assim. Então, a caritativa me ajuda nisso”, conta Walker.
Na última noite, tivemos um jantar na casa dos padres. Já temos o coração pleno e em volta da mesa está a Fraternidade. Ning também veio, pela primeira vez: “Queria saber o que é”. Simples: é A-Mei, é Julie. É Kun-Li que nos apresenta Mu-Dan, sua esposa. São as perguntas de Vincenzo sobre o trabalho e a macarronada de Donato, as frases de padre Emanuel e as histórias de família de Ilaria... É uma vida dentro da vida. Como diz Emilia, “é o cristianismo”.

OS NÚMEROS:
* 23,4 MILHÕES - os habitantes de Taiwan
* 93% - são budistas ou taoistas
* 900.000 - os cristãos
* 300.000 - os católicos

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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