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Passos N.185, Outubro 2016

RUBRICAS

Cartas

OS PRATOS SUJOS E MADRE TERESA
Trabalhar lavando pratos com o Erasmo e a Vera num restaurante do Meeting de Rímini foi uma oportunidade, porque me permitiu conhecê-los melhor e descobrir que o trabalho mais chato pode ser bonito. Entendi isso graças a Madre Teresa, depois de ter assistido a um vídeo onde dizia: “Não se trata daquilo que fazemos, mas do amor com o qual fazemos. Como somos seres humanos, isso nos parece pouca coisa, mas quando entregamos a Deus aquilo que fazemos, Deus é infinito, e a nossa pequena ação torna-se uma ação infinita. Precisamos encontrar a santidade no nosso trabalho, confiado a nós por Deus como um “presente especial”: sim, a cada um de nós deu um dom especial. E pode ser que eu apenas consiga descascar batatas, mas devo descascá-las de modo bonito, este é o meu amor por Deus em ação”. Talvez eu apenas possa lavar pratos, como aconteceu nestes dias, mas o ponto é como você faz isso e quem tem em mente. E você fica mais atenta a tudo, tanto é que todas as vezes que encontrava um prato sujo não fingia não perceber, mas o lavava novamente porque pensava: “Meus amigos vão comer neste prato e eu vou entregá-lo sujo?”. Pensando neles ficava mais contente, tinha mais vontade de fazer o meu trabalho. Não significa que se tornava menos cansativo, porque eu tinha vontade de descansar, mas era mais bonito, tanto que cantávamos, cumprimentávamos as pessoas e olhávamos com mais atenção a tudo. Sempre que alguém entrava na cozinha carregando uma pilha de pratos era impossível não ir ao seu encontro e dizer: “Deixe que eu faço isso, pode ir”. Desejo fazer todos os dias esta experiência de agir lembrando-me de alguém, no trabalho e em tudo o que faço. E desejo entender mais o que é e o que significa esse dom especial.
Tecla, Como (Itália)

“Não nos sentimos sozinhos”
Vivemos em meio a grande confusão e instabilidade, e tudo isso se reflete em nossa vida cotidiana. Passamos dias sem poder dormir à noite pela quantidade de bombardeios que são ouvidos. Além disso, na nossa área, a oeste da cidade, em nossa comunidade cristã e especialmente na latina, as bombas e mísseis que caíram causaram mortes e feridos. Neste momento, também sofremos com a incerteza, com a amargura das pessoas e o medo diante do futuro. Por um lado, sentimos um grande mal-estar e insatisfação a nível internacional quando vemos que não se chega a um acordo. Mas por outro, não nos sentimos sozinhos, nos sentimos muito queridos, cuidados em primeiro lugar pela Igreja, com o Papa que sempre solicita todas as partes em causa, e depois também por muitos, muitíssimos cristãos ao redor do mundo e pelas pessoas de boa vontade que se sentem responsáveis pelo destino das famílias que sofrem aqui.
Padre Ibrahim, Aleppo (Síria)

MISSÃO NO BRASIL
Caros amigos, quero lhes contar sobre um encontro que fiz hoje, domingo, 4 de setembro. Junto com padre Ignazio Lastrico, missionário do PIME em Santana (Amapá – Brasil) há poucos meses, fomos encontrar a família de padre Angelo Biraghi, também missionário do PIME, morto em 1986. Padre Angelo é a pessoa que, quase como uma brincadeira, convidou Dom Giussani para ir com ele fazer uma visita pastoral nas regiões do interior, e é o protagonista do episódio com o seringueiro. Encontramos as 4 irmãs idosas de padre Angelo e outros familiares. Muitas coisas me tocaram, mas, sobretudo, a ternura atenta destas velhas mulheres para com os missionários do PIME dos quais lembram o nome de cada um. Alguns episódios são comoventes, como quando contaram do pai de padre Angelo que sempre procurava nas revistas missionárias que recebia em casa um artigo que falasse do filho, e nunca o encontrava. Uma vez, quando o filho tinha voltado do Brasil, expressou a sua desilusão e o filho respondeu “é verdade, nunca apareço nas revistas, mas posso garantir ao senhor que tudo o que faço é por Cristo” e o pai lhe respondeu “então está bem”. A coisa que me marcou mais é o fato de que padre Angelo, secundo o que elas contaram, não era propriamente uma pessoa corajosa, ao contrário. Tinha medo de água e de muitas outras coisas. Fico impressionado em pensar do que a amizade com Cristo o tornou capaz! Talvez nem o padre Angelo teria imaginado que provocação representaria aquele seu convite a Dom Giussani para que o acompanhasse ao pântano na floresta. “Em suma, eu associo com aquele momento, com aquele instante, a percepção vivida do fato de que o cristianismo nasce exatamente como amor ao homem”. Uma história que continua hoje, com Ignazio que, quando tomou “posse” de sua paróquia em Santana, foi ao túmulo de padre Angelo para confiar-lhe esse novo início.
Giacinto, Monza (Itália)

“SENTI NOVAMENTE AQUELE GOLPE”
A notícia e as imagens do terremoto me comoveram. Seguramente porque já passei por isso, naquele 6 de abril, em Áquila. Senti novamente aquele golpe, que machuca, que rasga o coração e provoca o questionamento de um por quê. Não perdi ninguém da minha família, aliás minha filha Maria salvou-se naquele dia por causa de uma dor de dente. No dia 7 de abril estava perplexa, sentia tristeza por causa da minha casa, por todas as pessoas mortas, mas também estava plena do milagre de Maria. Hoje, exatamente por causa de toda a história que aconteceu depois do terremoto gostaria ainda mais de estar lá, gostaria de ajudar aquelas pessoas em sua dor, gostaria de dizer-lhes que Jesus as ama. Acho que posso dizer que entendi uma coisa com o terremoto de Áquila: nada é mais importante do que a pessoa, nada é mais importante do que o meu eu. Fico comovida com os gritos de alegria dos guardas e das pessoas quando salvam uma vida, quando conseguem tirar dos escombros uma menina ou um jovem. Aquele grito diz tudo. Toda a Itália parou diante daquelas imagens com o desejo de que encontrassem outras pessoas vivas entre os escombros. Fiquei comovida com o meu sobrinho, quando disse: “Hoje salvamos apenas duas pessoas!”. E diz a palavra “apenas” com amargura, porque foram encontrados muitos que não sobreviveram. Rezo pelas pessoas de Amatrice para que experimentem em suas vidas a pessoa de Jesus e o Seu abraço, porque gostaria de oferecer aquilo que eu recebi.
Grazia, Áquila (Itália)

NO ROSTO DELES, O MEU
Mais uma vez, este ano, a AVSI propôs uma Mostra no Meeting e, prontamente, chega o e-mail de Lorenzo: será que dou minha disponibilidade para ser guia? Claro que sim: a experiência de dois anos atrás foi o início de um maravilhoso terremoto. A Mostra é sobre as APAC: prisões brasileiras, e o primeiro painel diz que são fruto de uma “audácia ingênua”. A expressão, porém, me parece redutiva. São a expressão de pura loucura, de um sonho (realizado), o sonho de Mário Ottoboni, um advogado de São Paulo que, ao visitar os detentos de São José dos Campos concebeu um projeto impossível: uma forma de detenção gerenciada pelos próprios presos (diretor e voluntários também ajudam). Sem armas, sem agentes penitenciários, nada de nada. Detentos (recuperandos, na verdade, porque este é o termo usado no método APAC) que se autodirigem através de um representante de cela e (isso é realmente grande!) um Conselho de Sinceridade e Solidariedade, horários rígidos e rigorosamente estruturados para trazer ordem a vidas que não a conheciam. Mário Ottoboni não só concebe o projeto, mas também encontra um juiz que lhe dá crédito, Paulo Antônio de Carvalho. A Sede de Milão me envia os slides com os painéis. Leio-os com atenção, procuro eventuais esclarecimentos na internet, preocupo-me com a pronúncia dos termos em português. Tenho a impressão de não ter entendido: sem dúvida – digo a mim mesma – provavelmente não há só o diretor, não devem ter esclarecido tudo. Rimini, 18 de agosto, véspera da abertura da Mostra: Fabrizio Pellicelli, que é um dos curadores, explica a Mostra. É aí que a surpresa aumenta. Os testemunhos de eventos pequenos e inacreditáveis esclarecem que a “loucura” de Ottoboni produziu resultados impossíveis: reincidência de 15%, contra os 80% nacionais (mais ou menos igual aos dados italianos), nenhuma rebelião, a última tentativa de fuga aconteceu há 12 anos. Recuperandos que se apoiam mutuamente em um caminho cotidiano. Impossível pensar que não haja peso, dificuldades, mas a realidade é que algo acontece. E Fabrizio, para explicar tal resultado, diz: “É uma obra desejada por Deus”, mas não está encobrindo os fatos, há também os olhos arregalados pelo maravilhamento. Algo acontece, algo que é impossível, contra qualquer lógica humana: é isso que apresento todos os dias a quem vem visitar a Mostra, considerada pequena, mas tão solicitada a ponto de obrigar a colocar de lado a ideia dos turnos e horários marcados para as visitas guiadas: é um ciclo continuo. Cansativo, certamente, mas vale a pena para todos nós, mesmo para aqueles que são recrutados por Paola, a responsável, porque os voluntários não são suficientes para suprir os pedidos dos visitantes. Vale a pena porque essa Mostra é, como ouvi dizer outras vezes sem entender, “uma experiência”. A voz cada vez mais rouca com o passar dos dias conta a história de José, 58 processos, 106 anos de pena, mais de 30 fugas no sistema comum, que não foge da APAC porque “ninguém foge do amor”. E, enquanto explico os painéis, fico pensando que esse homem não foge e, no entanto, sabe que vai morrer ali dentro! Não foge! O impossível que acontece. A voz rouca indica o rosto belíssimo e sorridente de um jovem que passa no vídeo, grato por ver, da APAC, à noite e de manhã, as montanhas. Depois, fala do recuperando que não se penteia porque não quer ver no espelho o monstro em que se tornou. E indica a foto do outro que canta a plenos pulmões, e se expressa inteiro no seu gesto, durante a Jornada de Libertação com Cristo. Depois, sugere a identificação com essas histórias: provavelmente vocês nunca visitarão o Brasil, nem mesmo essa prisão, mas a experiência das pessoas das quais temos essas informações é parecida com a nossa. As desculpas que usam para esconder de si mesmos o mal que fizeram são as mesmas que usamos todos os dias, menores, certamente, porque menos necessárias, mas é o mesmo critério! Por que essa Mostra é uma experiência? Porque nela lemos o que nós somos, embora em diferentes dimensões, aquilo a que aspiramos, isto é, a beleza que intuímos através das frases dos painéis e descobrimos que sentimos com-paixão, esta santa maravilhosa identificação com o outro na qual vemos algo de nós mesmos. Os visitantes ficam comovidos, param para perguntar, agradecem, enquanto você pensa que já há outro grupo esperando, talvez esteja cansada, mas também com a próxima visita descobrirá algo de novo, encontrará a si mesma entre um painel e um vídeo, suas fraquezas cotidianas, sua necessidade tão grande e nunca suficientemente reconhecida, seu desejo de coisas grandes. Dentro dos rostos que você mostrará verá melhor o seu próprio.
Patrizia, Busto Arsizio (Itália)

NOS BRAÇOS DE FRANCISCO
Em 2008, nasceu nossa quarta filha, Matilde, com síndrome de Down. Hoje está para completar oito anos e não dá pra dizer o que ela é para todos... Um hino à alegria e uma pestinha como poucas. No dia 12 de junho, por ocasião do Jubileu dos Doentes e Deficientes, um amigo conseguiu para nós ingressos para ficarmos no adro e, assim, toda a família foi para Roma para assistir à missa com o Papa. Chovia, meu filho maior, que há algum tempo não gosta de ir à missa, resmungava, mas depois, sem que ninguém percebesse, falou com o chefe do serviço de ordem perguntando se o Papa poderia segurar sua irmãzinha depois da celebração. O guarda não disse sim nem não, mas ficou observando e quando o Papa começou a cumprimentar os deficientes já inscritos no protocolo, chamou-o e perguntou onde estava sua irmã. Eu, sem saber de nada, já tinha aberto caminho para ficar na frente. O guarda se aproximou e, em poucos minutos, Matilde estava no colo do Papa, abraçava-o e conversavam. Meu marido se ajoelhou, e também trocou duas palavras com o Papa. Matilde participa de toda a beleza da realidade ultrapassando o seu limite e por vias misteriosas, que descubro vendo-a viver situações e relacionamentos de modo tão verdadeiro que me surpreende. Vê-la nos braços do Papa encheu-me de gratidão por fazer parte da história da Igreja.
Simona, Varese (Itália)

NO PASSEIO, ESQUECENDO-SE ATÉ DO POKÉMON
Depois de muitos convites, em abril, com uma dezena de alunos meus do quinto ano e ex-alunos, começamos a nos encontrar sistematicamente para falar das perguntas sobre a existência e sobre a vida. Perguntas que muitas vezes me fizeram pessoalmente e sobre as quais conversamos bastante nos últimos anos que passamos juntos (sou professora de Religião em uma Escola Técnica) com grande amizade e estima recíprocas. O convite para um encontro onde eu apresentaria um livro de padre Gianluca Attanasio sobre a Irmã Faustina Kowalska, fez nascer uma motivação imprevista que levou a um jantar e outros encontros, um mais bonito que o outro. Nenhum deles é cristão, mas todas as vezes que nos encontrávamos voltávamos para casa contentes, eu em primeiro lugar, com o coração cheio de simpatia. Convidei-os para um encontro com meus amigos padres, fomos ver a Virgem das Rochas, de Leonardo, conhecemos um padre do PIME que tinha voltado há poucas semanas do Camboja e, sobretudo, fizemos uma Exposição montada numa praça em Cinisello. Falavam com todos os que se aproximavam. A alegria em seus rostos no final do dia era realmente a evidência de um imprevisto que tinha se feito encontro. Num sábado, fizemos um passeio até o Lago Maggiore. Quando saímos, todos estavam jogando Pokémon Go, um novo jogo de celular que é uma mania. Aos poucos, as atividades do dia, a visita ao eremitério de Santa Catarina, o Angelus para quem aceitou rezá-lo, a caminhada, o almoço, os jogos e, depois, o banho no lago, revelaram um método do outro mundo e fizeram-me entender o sentido das férias das nossas comunidades. Na volta, ninguém mais pensava no Pokémon, faziam todas as coisas juntos e o Facebook e o Whatsapp estavam cheios de frases e fotos mostrando a beleza daquilo que estava acontecendo. Alguns me perguntaram como se faz para confessar.
Francesco, Milão (Itália)

Um encontro que muda vida
Há um ano conheci o Movimento. Cheguei através do convite de Milena, que antes era minha professora. Meu primeiro encontro foi com a Escola de Comunidade (EdC) dos colegiais guiada pela Isabella Xavier. Ouvia muitas coisas bonitas, importantes e cheias de significados na EdC e isso me chamou muito a atenção. O que mais me marcou foi quando lemos uma parte do texto que falava sobre “o desejo de viver uma vida autêntica agora, hoje”, porque era isso que eu buscava e desejava. Eu não saí desse lugar como entrei, porque senti uma correspondência, essas palavras me provocavam e me moviam. Depois de ter encontrado a EdC, Milena me fez outro convite, de ir à missa no domingo, na Igreja Nossa Senhora Educadora, em Ondina. Nesse lugar conheci outros amigos do Movimento. Logo duas moças me chamaram atenção com seus gestos, que eram a Alessandra e Michele, que me receberam com um abraço acolhedor de bem-vinda. Esses encontros tornaram minha vida “Vida”. As palavras, os olhares, mudaram a minha vida. Estando com os amigos do Movimento era tudo diferente, porque tudo pra mim fazia sentido: uma música, brincadeiras, encontros, retiro, convivência... Tudo me preenchia. Aprendi a olhar pra mim, a abraçar-me toda, até as dificuldades. A educação que eu tive com o Movimento me fez querer viver ainda mais, é uma graça na minha vida. Com esses belos encontros também me dei conta que sem Cristo eu não poderia viver. Vi que eu preciso, necessito encontrar com Ele todos os dias, porque preciso da plenitude de vida. Finalmente comecei a viver. O Senhor me acolheu, me olhou como ninguém tinha me olhado antes. Graças a esse abraço me vem a vontade de responder e de mudar. É deste abraço que brota uma vida diferente. Este caminho é muito belo, esse é um caminho que enche meu coração dia após dia.
Verônica, Salvador (BA)

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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