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Passos N.193, Julho 2017

LEITURA

Bento XVI – um grande homem de nosso tempo

por Marli Pirozelli N. Silva

Neste livro-entrevista, próximo de uma autobiografia, o Papa Emérito quebra o silêncio sobre vários temas que enfrentou em sua vida dedicada à Igreja. Aos 90 anos continua se dedicado à oração, recluso nos jardins vaticanos


Publicado originalmente com o título de “Bento XVI - Últimas conversas com Peter Seewald” o mais recente livro do Papa Emérito Bento XVI recebeu o título em português de “Bento XVI - O último testamento em suas próprias palavras”. A leitura das primeiras páginas já revela que o conteúdo do livro está muito distante de ser um testamento. O próprio Bento XVI afirma que não há um legado a defender ou um conjunto de ensinamentos a serem transmitidos, pois a Igreja segue o seu curso, mas apenas o testemunho de uma vida dedicada ao Senhor.
Trata-se de uma conversa franca entre velhos amigos e por isso não há temas proibidos: os escândalos de pedofilia, o caso Williansom, o Vatileaks, as acusações de retrocesso na Igreja, as violentas críticas da mídia internacional, assim como a renúncia ao Papado são alguns dos assuntos tratados sem reservas. As perguntas dirigem-se ao homem Bento XVI e ainda que tratem de temas polêmicos, o jornalista procura saber de que forma o Papa vivenciou cada episódio.
O diálogo ocorre sem artifícios e o jornalista chega a perguntar ao Papa como ele se sentiu diante das críticas, da oposição no interior da própria Igreja, se ele se sentiu fracassado em algum momento e se já experimentou o amor em sua vida.

Aqui reside o interesse e a grandeza do livro. Ao tomarmos contato com as reações do Papa e suas respostas é como se pudéssemos ouvi-lo responder baixinho, com sua voz fraca (que ele admite ser uma limitação pessoal), com delicadeza e discrição, expressando suas ideias com clareza e precisão. Continua um grande professor, capaz de “desembaralhar” as questões mais difíceis e explicá-las com desenvoltura e profundidade.
O livro revela aspectos de sua vida em família e nos apresenta a trajetória profissional de um jovem teólogo e brilhante professor, que não foi poupado das incompreensões, disputas e injustiças no ambiente acadêmico, e que descreve com entusiasmo quase infantil a alegria de ensinar os jovens. É também com os jovens, como capelão, que Ratzinger vive o período considerado o “mais belo de sua vida”, ainda que seja durante este período que ele se dê conta de que a fé tem pouca incidência na vida real daqueles jovens.
Somos convidados a acompanhar a trajetória do jovem professor, chamado a fazer parte do Concílio Vaticano II, que participa ativamente na definição dos novos rumos da Igreja e que mais tarde será nomeado Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé pelo Papa João Paulo II, de quem aprendeu a visão filosófica e o diálogo inter-religioso.

Chegamos então à nomeação de Bento XVI como Papa em 2005, considerada surpreendente por ele, já que na época contava com 78 anos. Um período descrito por ele como repleto de grandes encontros, mas também um fardo. Um pontificado marcado pela contradição: a edição de suas encíclicas atingia marcas astronômicas e nunca tantas pessoas participaram das audiências, mas nunca um Papa foi tão incompreendido e criticado como ele.
E aqui podemos conhecer melhor quem é este homem, que assumiu esta tarefa tendo a consciência de que “nunca está sozinho”, que só estava a serviço de um Outro e que admite com simplicidade suas limitações, tais como a falta de talento para a condução das coisas práticas ou para as decisões, e que afirma que a maior insatisfação que teve enquanto Papa foi não ter forças para apresentar as catequeses de forma tão profunda, “tão humana quanto possível” e não a decisão de renunciar ao papado.
Ao contrário do que se dizia, foi um homem de diálogo: conversava com intelectuais de diferentes matizes, com políticos, com ateus ou agnósticos e sem alarde, estreitou os laços com judeus, protestantes e muçulmanos. Foi um pastor e também um intelectual rigoroso, que compreendeu as mudanças pelas quais passava a cultura desde o Iluminismo, a hegemonia da cultura positivista e relativista, cada vez mais intolerante ao cristianismo e ousou propor ao mundo alargar a razão, em busca da verdade.

Para Bento XVI a razão e a fé sempre estiveram em estreita colaboração. O interesse pela Teologia e pela Filosofia expressam a inquietação que o assolava desde jovem e continua a habitá-lo, em busca de compreender a verdade de toda a realidade, plasmada e habitada pelo Deus vivo, que de alguma forma, é acessível à razão.
Quando perguntado sobre qual seria o ponto central de seu pontificado, Bento XVI cita o Ano da Fé e esclarece que a missão de seu papado era mostrar o que significa a fé no mundo de hoje, enfatizar a centralidade da fé em Deus e vivê-la concretamente neste mundo redescobrindo Cristo.
Enfim, um homem vivo, lúcido, que aceita a finitude da vida e que procura se preparar para a morte, vivendo na consciência de que a vida tende para um Outro.
Um grande intelectual, porém um homem simples, que desejava apenas ensinar, cuja paixão pelo homem, pela busca da verdade e por Cristo conduziu a lugares impensáveis e que agora dá continuidade a esta busca como um monge dedicado à oração, porque seu único desejo é ficar mais próximo de Deus.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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