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Passos N.87, Outubro 2007

CULTURA - Claudio Chieffo (1945-2007)

Ho un amico grande grande

por Massimo Bernardini

No dia 19 de agosto, poucas horas antes do início do Meeting de Rímini, e após dois anos de luta contra a doença, Claudio Chieffo, uma das testemunhas que mais marcou a história de Comunhão e Libertação, voltou à casa do Pai. Nós o saudamos assim, contando sobre uma amizade que continua


O sorriso contagiante e sereno (mas sempre com um fundo de melancolia) de Claudio Chieffo abria-se completamente sobretudo em dois casos: quando criava uma nova canção – e havia algo de maravilhoso na surpresa cheia de gratidão que isso suscitava nele – e quando podia estar à frente, em uma assembléia, cantando. Chieffo, muito mais que nos resultados discográficos ou no reconhecimento público de sua profissão de cantor, apostou tudo nesta imprevista “vocação” musical (que, a título de informação, conta com mais de 3000 concertos, 113 composições traduzidas em muitas línguas e 10 discos gravados, entre CDs e LPs).

Desde o início, nos primeiros anos da década de sessenta, nos quais também as velhas fotos nos mostram a imprevista presença nos encontros de GS guiados por Dom Giussani, estar em meio ao seu povo, ser a sua voz era para ele a mais bela das gratificações e a mais importante das responsabilidades. E foi assim durante toda a vida, vivida em pobreza de meios mas sempre no mais total e profissional respeito a seus ouvintes, exibindo-se generosamente para platéias grandes e pequenas, consciente de que deveria levar a qualquer lugar, através de suas canções, a beleza e a verdade que tinha encontrado.

E foi sempre tal consciência que o levou, anos depois, durante a tempérie pseudo-revolucionária dos anos 70, a “visitar” os cristãos do Leste: do convite para participar do Festival “Sacrosong” de Varsóvia em 1974 (Chieffo foi o único italiano presente e cantou as suas canções diante do cardeal Wojtyla e do cardeal Wyszunski) até as inúmeras viagens clandestinas realizadas nos anos seguintes.

O casamento com Marta, a chegada dos três filhos, Martino, Benedetto e Maria Celeste, os vários encontros com João Paulo II, as novas experiências discográficas e a participação em programas de televisão (além do cansativo retorno, nas manhãs pós-concerto, às aulas no ensino médio onde durante quase toda a vida foi professor de literatura em sua cidade, Forlì) são as etapas de uma carreira singular e anômala.

Gaber e Guccini, com quem teve encontros públicos e um relacionamento privado, olhavam o seu percurso com grande consideração, admirados de que seu trabalho pudesse continuar ano após ano, fora do circuito comercial e teatral tradicional, em total e ininterrupta sintonia com o próprio público. Mas, talvez, o segredo de Chieffo fosse este: não ser considerado “audience” mas comunidade, interlocutor precioso, pessoa. Sendo possível crescer, no tempo passado perto dele, dentro da própria história, marcando-a, assim, para sempre.


"Marta e filhos, permitam-me exprimir em nome do nosso povo aqui presente toda a nossa proximidade e a nossa companhia neste momento de dor. Todos lembramos como Dom Giussani dizia que o canto nasceu um minuto antes do Movimento. Claudio soube exprimir a alma do nosso povo, aquilo que nos tocou, que nos fascinou, e contribuiu para gerar este povo. Por isso, agora, será nosso companheiro para sempre, companheiro com as suas canções que continuaremos a cantar. Porém, agora, com a consciência de que aquilo que cantamos tornou-se nele verdadeiro para sempre."
Julián Carrón

 


“O olhar de um adulto na fé”


Comentários inéditos de Dom Giussani sobre quatro das canções de Chieffo que ele mais amava


La nuova Auschwitz (A Nova Auschwitz)
Lembremos que “não é difícil ser como eles”, que é possível ser como eles. (...) O tempo desta violência, desta destruição, de alguma forma sempre se insinua: em nossa vida pessoal, no relacionamento com a menina ou o menino, com os pais, com os colegas de escola, com tudo aquilo que nos circunda. Quanto em nós conhece o veneno da violência, da instrumentalização! Há apenas um modo de evitá-lo: aproximar o homem, quem quer que ele seja, do mais próximo e preocupante ao mais estranho e distante, de um amor ao seu destino, este respeito profundo e esta paixão pela sua liberdade e pela sua energia em caminho.

Ballata dell’uomo vecchio (Balada do homem velho)
“Tens a face que tens, o rosto que tu tens e, para mim, é terrível”, diz a música. A um certo ponto, percebemos que este rosto, esta face terrível, inalcançável, Fato ou Deus, aquilo do qual evidentemente flui e depende tudo e todas as coisas, tornou-se homem, assentou-se como um qualquer entre nós... Tornou-se um entre nós, não é mais uma face terrível, não é mais um rosto inalcançável que desejo ver mas não é possível. Tornou-se visível. Não à nossa frente como algo a ser adorado, não uma ameaça sobre nós como algo que possa acontecer, mas um Companheiro de caminho, um Amigo; e a amizade é uma companhia ao destino.

Ho un amico (Tenho um amigo)
“Tenho um amigo grande, grande, não há ninguém mais justo que ele, deu-me o mundo inteiro, é mais forte até que um rei”. Esta não é a consciência imprecisa e vaga que uma criança tem de Jesus Cristo mas é o olhar penetrante de alguém que, adulto na fé, reconhece que toda a própria grandeza depende do gesto daquela humilhação de Deus, deste inclinar-se de Deus sobre nós. E isto não pode deixar de provocar uma rebelião dentro de você. Não pode não provocar uma resistência. Se hoje estamos cansados, enfraquecidos, entorpecidos e a palavra “amigo” não vibra em uníssono com a vida, se a palavra “amigo”, dita em relação a Jesus Cristo, não possui toda a nossa consciência, é só porque opomos resistência a um Deus assim.

La Strada (A Estrada)
“É bela a estrada que leva para casa e onde já te esperam”. O caminho é questão de consciência, porque alguém poderia percorrer 100 km e nunca partir. A história da vida é uma consciência, porque não há história para um fóssil que, depois de 2000 anos, mude até o próprio aspecto fundamental.

 

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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