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Passos N.89, Dezembro 2007

CULTURA - Brasil / Cinema nacional

Tropa de Elite: há vencedores nesta guerra?

por Marli Pirozelli N. Silva

Tropa de Elite, do diretor José Padilha, está em cartaz no Brasil todo desde meados de outubro. Trata do tema da violência policial e do tráfico de drogas no Rio de Janeiro e tem provocado muitas discussões. A seguir uma contribuição de leitura sobre o filme


Há alguns meses a sociedade brasileira foi sacudida por um filme cuja temática é bastante conhecida nos centros urbanos, mas ao contrário dos filmes de ação, em que assistimos ao desenrolar do confronto entre bandidos e policiais, Tropa de Elite nos arranca do conforto de nossas poltronas e nos lança em direção ao problema. Não é possível ficar indiferente.

Há uma guerra em curso e a questão não se resume a decidir qual lado apoiar, mas em compreender de que forma estamos envolvidos nesta realidade: qual é a nossa parte nisto? Consumidores diretos? Cidadãos coniventes com o “consumo social”? Espectadores sensíveis ou indiferentes a uma rede de poder que se estende de forma impiedosa sobre as parcelas mais vulneráveis da população? Intelectuais prontos a explicar os mecanismos que geram o tráfico e a violência?

Nem mesmo a Universidade é poupada: reflexões bem intencionadas, feitas a partir de esquemas que reduzem a realidade a aspectos parciais (política ou economia por exemplo) mostram-se incapazes de apontar soluções adequadas à complexidade da vida.

A força do filme não se encontra na associação direta entre o tráfico e o consumo da classe média, nem em expor a corrupção que vigora no interior da polícia ou mesmo em nos fazer tomar partido diante da guerra (Bope x traficantes), mas em nos colocar diante da pergunta: há outra saída? Existe alternativa a esta situação?

Numa guerra não há lugar para reflexões ou emoções, é preciso combater o inimigo com eficácia.

A violência que permeia todo o filme – a narração é acompanhada por poucos diálogos, entremeados por gritos, expressões de raiva e gestos brutais – expressa uma possibilidade de enfrentamento da situação, que ao longo do filme vai revelando sua fragilidade.

A única alternativa que parece possível – a violência como linguagem e solução – carrega em si um limite: é preciso negar alguns fatores da realidade para vivê-la. É preciso negar sistematicamente a própria humanidade e eliminar a do outro: esta é a operação que permite aos homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) sobreviverem e cumprirem sua missão. Qualquer sinal de humanidade deve ser sufocado: a comoção pelo outro não pode existir e até mesmo a positividade trazida pelo nascimento de uma criança só pode ser vivida numa esfera totalmente separada do cotidiano. Não há espaço para a dor nem para a esperança.

Mas as coisas não são simples. Estamos diante de homens íntegros, movidos por convicções, soldados que têm consciência da brutalidade do tráfico e empenham suas vidas nesta missão: subir o morro, enfrentar diariamente situações de risco, expor-se à morte com baixos salários e pouco reconhecimento em defesa da sociedade.

Não há limite entre a luta por um bem e o mal contido na guerra?
O desejo de bem não basta para dar forma a uma realidade mais justa?

Sabemos que o problema da marginalidade não se explica somente pela pobreza, pela falta de opções de trabalho ou escola, mas traduz também uma escolha pessoal.

Cada homem é chamado a desenvolver todas as dimensões que o constituem, sendo a maior delas a busca de verdade sobre si mesmo: em qualquer contexto o homem continua a gritar por algo que venha preencher o vazio que estruturalmente carrega.

Quando não se reconhece esta dimensão, que qualifica o homem como tal e o abre ao Mistério, as respostas ao problema do tráfico e da violência mostram-se insuficientes e nem mesmo a coordenação de esforços públicos e privados voltados a geração de emprego, educação, segurança e cultura é capaz de dar conta do problema.

A questão é educar o homem, avivar a consciência de quem ele é, daquilo que o constitui e é o fundamento último de toda a realidade.

As instâncias educativas (família, escola, igreja, universidade) parecem ter se esquecido disto. É preciso, portanto, recuperar e construir espaços de educação pessoal, lugares de vida onde cada um possa reconhecer em si e no outro um apelo à realização, que atinge sua plenitude no encontro com Cristo, que revela ao homem quem ele é, sua origem e destino.

Só assim é possível valorizar o outro e a positividade que já está presente na realidade, muitas vezes de forma discreta ou quase imperceptível, mas que pode dar sentido à dor e à dureza da vida de tantas pessoas envolvidas pelo tráfico.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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