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Passos N.71, Abril 2006

EXPERIÊNCIA

Quando no trabalho há um fator a mais

por Patrícia Soares Molina

Profissionais que trabalham intensamente em um mercado cada vez mais competitivo. Homens que encontraram a experiência do Movimento e a Igreja. Um encontro que tem a ver com tudo e muda o relacionamento com o trabalho.

O Encontro com uma Presença que revela um gosto novo em tudo. Uma experiência que transforma o relacionamento com a realidade e gera uma fecundidade nova no ambiente de trabalho. A seguir profissionais que conquistaram seu lugar no mercado, com carreiras consolidadas ou em ascensão, testemunham como o encontro com o Movimento os ajuda a viver a liberdade e o empenho no trabalho.

A liberdade que nasce do Sim ao Mistério
Marcelo Lucato é diretor de criação de uma importante agência de publicidade, em São Paulo. Responsável pela conta de uma montadora, ele cuida de todos os detalhes relativos à propaganda da empresa, desde a coordenação de uma grande campanha até a definição da tabela de cores para o ano seguinte. “Nesse trabalho, todos os detalhes precisam ser levados em conta.”
Com uma trajetória de sucesso no competitivo mercado da propaganda, Lucato revela que não escolheu trabalhar nessa área. “Eu sempre gostei de desenhar, com 14 anos comecei a trabalhar com desenho, fazendo silk-screen para camisas e cartazes para ônibus. Fiz faculdade de Belas Artes pensando em ser artista plástico, mas acabei entrando para o mercado da propaganda.” A mudança não foi nada simples. Lucato entrou na primeira agência de publicidade nos anos 70, época marcada pela contestação. “Eu sentia vergonha de fazer propaganda, éramos considerados os ‘vendidos ao sistema’. Durante muito tempo isso me incomodou e me dividiu. Não me sentia livre diante do meu trabalho.” Para Lucato, o novo olhar sobre o trabalho nasceu a partir do encontro com o Movimento Comunhão e Libertação. “Dom Giussani diz que você tem que fazer bem o seu trabalho porque é isso que Deus quer que você faça. Olhando para traz eu vi que não tinha escolhido aquilo, não era a meta da minha vida fazer propaganda, mas as coisas foram me encaminhando para isso. Com essa nova consciência eu comecei a levar mais a sério o trabalho e a olhar com mais carinho para a minha profissão. A relação com o trabalho mudou e a qualidade também. Abracei mais a profissão e a carreira também começou a crescer.” A liberdade diante do trabalho fez nascer o desejo de estar cada vez mais a disposição do Mistério naquele ambiente. “Eu acreditei que Ele me colocou aqui e agora pergunto o que Ele quer de mim aqui. Como posso me relacionar com Ele nas 10 ou 12 horas que eu passo aqui? Aos poucos começo a me colocar mais a serviço dEle e quanto mais me coloco à Sua disposição, mais as coisas começam a acontecer. A ajuda vem desde as boas idéias que começaram a aparecer, até as coisas boas que começaram a acontecer para a minha equipe, questões difíceis que eu não conseguia resolver.” Lucato revela ainda que os critérios aprendidos na Escola de Comunidade interferem concretamente nas ações cotidianas. “A atenção à realidade é um fator que ajuda diretamente no processo criativo. Além disso, o olhar para realidade na totalidade dos fatores significa concretamente me relacionar de uma forma mais verdadeira com as pessoas. Desde saber ouvir o cliente, o que não é muito comum nesse mercado porque as pessoas estão mais preocupadas em vender as suas idéias do que em ouvir o que o cliente deseja, até a atenção às pessoas da minha equipe, por exemplo, saber definir que atividade é mais adequada para cada um. No meu trabalho nós precisamos olhar a pessoa. Nós trabalhamos com pessoas, a nossa matéria-prima são as pessoas e o nosso trabalho vai para pessoas.”

Antes de tudo o olhar verdadeiro ao outro
Luiz Carlos Tarifa é representante comercial de uma empresa de produtos químicos para higiene e limpeza, voltados para organizações de médio e grande porte. No disputado mundo das vendas, onde a concorrência não é apenas entre as empresas, mas também entre os companheiros de uma mesma equipe, ele testemunha como um olhar e um relacionamento verdadeiro são mais importantes e, até mesmo, mais eficientes, do que as mais modernas técnicas, pregadas nas famosas convenções de venda. “Para mim o início de tudo está na oração. antes de começar o meu dia e antes de encontrar um cliente eu sempre rezo o Glória ao Pai oferecendo aquele momento. As visitas aos clientes são sempre momentos de encontro. Percebo isso no meu modo de olhar para eles. Sei que eles têm o mesmo coração que eu. Mesmo não fazendo a mesma experiência, temos o mesmo coração. Mesmo quando o trabalho não dá certo, quando a venda não acontece, eu percebo que houve um encontro ente mim e aquela pessoa.” Luiz Carlos observa que esse modo mais humano de se relacionar com os clientes acaba facilitando também a venda. “Na maioria das vezes as coisas dão certo sob o ponto de vista dos negócios, porque além da vocação para vendas, tem essa questão do olhar para a pessoa e o desejo de estabelecer um relacionamento com ela. É claro que as técnicas de venda são importantes, é preciso saber falar do produto e criar as melhores condições para a uma boa negociação, mas é muito mais importante o relacionamento, olhar para o destino do outro e olhar para o meu destino. As pessoas percebem quando são olhadas assim e eu só posso olhar para os outros assim porque já fui olhado também. Dessa forma se estabelece uma relação de confiança que acaba favorecendo a venda, mas que favorece principalmente o encontro e o bom mesmo é encontrar as pessoas.” O ambiente dentro da empresa não é simples, a concorrência entre os vendedores é grande e as traições às vezes acontecem. “As convenções de vendas são sempre muito carregadas de apelos emocionais, mas no dia-a-dia as pessoas acabam se atropelando, passando a perna umas nas outras. Quando isso acontece eu fico triste não só pela questão profissional, mas pela questão humana. Tento não me abalar muito. A dificuldade me faz rezar mais, valorizar mais a experiência de bem que nós vivemos no movimento e desejar que outras pessoas possam viver essa mesma experiência. As pessoas da empresa sabem que eu sou católico e pertenço ao movimento. As vezes meu chefe pede que eu faça a oração durante as nossas reuniões mensais. Nesses momentos eu falo sobre a importância do relacionamento, lembrando que as técnicas de venda não são a coisa mais importante e que quando elas não funcionam o que conta é o relacionamento que eu estabeleço com o meu cliente. Ressalto que quando somos verdadeiros as pessoas confiam em nós e as coisas acontecem. As coisas são sutis, mas é essa forma nova de relacionamento que acaba conduzindo o meu trabalho. Quando olho para uma pessoa, ela é como um espelho mesmo, mesmo com as diferenças.”

Buscar as razões em tudo o que se faz
José Roberto Cosmo é gerente de Planejamento e Estratégia em Assuntos Corporativos em uma multinacional da área de tabaco, no Rio de Janeiro. Ele é responsável, entre outras coisas, pela gestão da marca institucional e pelas ações de Responsabilidade Social da empresa. Antes de assumir essa posição, entre os anos de 2002 e 2003, Cosmo trabalhou durante 23 anos como gerente de Recursos Humanos da Companhia. Ele observa que a experiência pedagógica vivida no Movimento lhe garante os critérios e a abertura a realidade necessária para enfrentar os desafios do seu trabalho. “A empresa decidiu implementar uma nova metodologia de diálogo com os públicos afetados pela sua atuação. A área de Planejamento e Estratégia em Assuntos Corporativos é responsável pelo relacionamento interpessoal com esses públicos. Aqui nós precisamos lidar com grupos que criticam a empresa, como os anti-tabagistas e os ecologistas, e também com Ong’s. Para assumir essa posição, a empresa buscou alguém que tivesse um perfil de fácil relacionamento, capacidade de organização, abertura ao diálogo e etc, então me escolheu. Acho que o Movimento me ajudou a desenvolver esse perfil e acabou influenciando muito o fato de eu hoje estar nessa posição. Uma citação de Dom Giussani que exemplifica essa influência e orienta o meu trabalho, é a frase que o seu pai dizia para ele: ‘Nunca se esqueça de perguntar as razões e o significado das coisas que você faz’.” Cosmo revela que a área de Responsabilidade é marcada por muita mistificação, as pessoas são tratadas como algo abstrato. “O Movimento me ajuda a fincar o pé e confrontar a realidade. Eu estou aqui fazendo a Responsabilidade Social com uma consciência crítica, sabendo que não sou eu que vou mudar as coisas, não são as ações sociais que vão transformar a realidade.” Cosmo chama atenção para o que ele define como a “terceirização da caridade cristã”. “As pessoas que trabalham com Responsabilidade Social, principalmente as Ong’s se esquecem que a Responsabilidade Social começou na Igreja, com suas obras sociais e as Santas Casas de Misericórdia. Hoje nós estamos vendo algo como a terceirização da ‘caridade cristã’ por parte das Ong’s, que muitas vezes adotam uma postura crítica em relação à Igreja e uma postura ideológica, uma vez que boa parte dos militantes dessas ações, vem da militância partidária. O Movimento me ajuda a ver que a Responsabilidade Social começa com uma atenção verdadeira a pessoa do outro em todos os aspectos. Nesse sentido, a responsabilidade social começa com viver a verdadeira caridade cristã com todos, desde o respeito e a valorização das pessoas que trabalham comigo até o uso dos critérios justos para apoiar uma determinada obra ou ação social. A educação do Movimento, os critérios aprendidos, me ajudam a ter uma visão mais ampla da realidade e a fugir da ideologia que acredita que essas ações são a única forma de transformação da realidade.”

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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