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Passos N.61, Maio 2005

EXPERIÊNCIA / O MOVIMENTO HOJE

Oferta: a incrível fecundidade

por padre Mauro-Giuseppe Lepori *

O relato do último encontro entre dom Eugenio Corecco e padre Luigi Giussani.
Lugano, Cúria Episcopal, 20 de fevereiro de 1995


Foi, sem dúvida, uma das maiores (e imerecidas) graças da minha vida: a de ter sido testemunha do último encontro entre o padre Luigi Giussani e o bispo Eugenio Corecco, que vivia, no sofrimento e na fé, os últimos dias da sua existência terrena.
Aconteceu na segunda-feira dia 20 de fevereiro de 1995. Eu havia ido à Cúria na tarde do dia anterior. Padre Giussani chegou às dez da manhã. Acompanhei-o ao quarto do bispo. Padre Giussani se aproximou da cama e se inclinou para beijar o anel episcopal, creio que três vezes.
Eu ameacei me retirar, para deixá-los a sós, mas dom Corecco me pediu para ficar. Penso que temia a sonolência, que o assaltava continuamente, e de fato creio que a minha presença afastou o incômodo de ambos: o bispo sabia que o padre Giussani não ficaria só, se ele perdesse a consciência; e padre Giussani podia dialogar comigo.
Durante aquela hora mantive com padre Giussani um diálogo extremamente rico e profundo, do qual, depois, consegui anotar apenas alguns fragmentos.
Ele me falou da primeira vez que viu esse jovem padre suíço num retiro pascal do Movimento, em Varigotti, apoiado numa coluna da sala ou da igreja em que se encontravam. Enquanto falava, Giussani se perguntava como reagiria aquele padre, e temia as críticas que poderia expressar. Ao contrário, encontrou logo no padre Eugenio uma acolhida atenta e humilde, o que lhe causou muito boa impressão.
Durante aquela hora, várias vezes padre Giussani sublinhou como o sofrimento e a doença de dom Corecco estavam se revelando de uma fecundidade incrível para a diocese. Dizia: “O essencial, para um bispo, para um pastor, para um abade, é a caridade. A caridade é que é fecunda, ela é que muda e converte o povo, começando, talvez, entre duas ou três pessoas”.
Depois, falamos do mosteiro, do seu papel na Igreja, e das casas dos Memores Domini como lugares de caridade. Padre Giussani também me falou das primeiras presenças do movimento Comunhão e Libertação na Sibéria. Disse: “É a caridade que regenera o amor. O mundo não perdoa. A caridade recomeça sempre a amar”. Respondi que dom Eugenio foi isso para mim, para nós que vivíamos com ele: recomeçava sempre a nos amar, apesar de tudo. “No início do cristianismo – observou Giussani – o que converteu o mundo foi o milagre”. Ousei precisar: “O milagre e a caridade”. Ele rebateu sorrindo: “A caridade é o milagre!”. “É verdade – respondi –, não há maior milagre do que descobrir em si mesmo a caridade, um amor que antes não havia”. Padre Giussani me disse: “Você tem razão, foi isso que você escreveu na sua primeira carta!”. Confesso que me passou pela cabeça um mau pensamento: “Não é possível que ele se lembre disso!”. Mas depois fui conferir e percebi que ele se lembrava da minha carta melhor do que eu mesmo!
Nesta altura o bispo Eugenio disse, como que para se desculpar da sua sonolência, que naquele dia estava muito cansado. Giussani lhe disse: “É a experiência do limite. Mas o limite foi vencido. Cristo venceu o nada. É isso que me espanta na página mais impressionante da Bíblia, o primeiro capítulo do livro da Sabedoria”.
Depois falamos da relação limite-eternidade, do limite que é o ponto em que o homem faz a experiência do Eterno, da Face bonita do Mistério, da Trindade. O que impressionava particularmente Giussani no primeiro capítulo do livro da Sabedoria era o final, onde se diz que Deus não criou a morte, que criou tudo para existência, e no entanto os ímpios escolhem a morte (cf. Sb 1,13-16). Eu lhe disse que isso me levava a pensar no que Jesus disse aos judeus: “Mas vós não quereis vir a mim para terdes a vida” (Jo 5,40).
Cito esses fragmentos de diálogo porque ele se desenvolvia como que à borda do abismo da provação do bispo Eugenio, que estava sempre presente. Dialogávamos sentados ambos à esquerda do bispo, que permanecia deitado na cama; suas ausências de consciência tornavam-no ainda mais presente, porque o víamos nos pródromos da agonia. Por isso, falávamos mais olhando para ele do que na face um do outro. E tudo o que dizíamos não era para preencher o silêncio que nos rodeava, mas como que para entrar nele e ouvir a sua mensagem.
A uma certa altura, propus recitarmos uma dezena do terço, e o bispo logo concordou. Depois do primeiro mistério gozoso, dom Corecco me fez sinal para continuar, e assim rezamos três dezenas. Foi um momento de grande paz, recitar o terço com o padre Giussani e dom Eugenio, que procurava unir-se a nós. De vez em quando, padre Giussani passava as mãos nos olhos, visivelmente comovido. Durante o colóquio, me disse, entre outras coisas: “Deus se manifesta na fragilidade. Havia um velho padre, no seminário, que nos repetia diariamente: ‘Quem reza se salva’, e eu sempre o escutei”.
Às onze horas, padre Giussani precisou partir. Dom Corecco adormecera e eu o despertei. Padre Giussani estava comovido até às lágrimas e dizia ao bispo: “Eu lhe peço, em nome de todos, que nos mantenha presentes na sua oferta. O que você vive é perfeito, é perfeito, não falta nada!”. Abraçaram-se, ambos chorando. Padre Giussani acrescentou, com a voz entrecortada pelo choro: “Dom Eugenio, posso voltar? Não se incomoda se eu retornar na próxima semana?”. O bispo consentiu, mas não conseguiu falar. Saímos do quarto e do escritório. Padre Giussani chorava; grossas lágrimas escorriam pela sua face. Parou na porta dos aposentos, onde estavam duas ou três pessoas, e repetiu: “O que ele está vivendo já é perfeito e é de uma fecundidade incrível!”.

* abade do mosteiro cisterciense de Hauterive (Suíça)

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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