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Passos N.59, Março 2005

O MARAVILHAMENTO DE UM ENCONTRO

Simão, tu me amas?

por Luigi Giussani

Generare tracce nella storia del mondo.
Rizzoli, Milão 1998, pp. 82-85


O capítulo 21 do Evangelho de São João é a documentação fascinante do surgimento histórico da nova ética. A história particular que está documentada ali é a chave da concepção cristã do homem, da sua moralidade, no seu relacionamento com Deus, com a vida, com o mundo.
Ao amanhecer, os discípulos voltavam de uma noite ruim no lago, em que não haviam pescado nada. Próximo à margem, vêem na praia uma figura que estava acendendo uma fogueira. Eles teriam visto depois que no fogo estavam peixes, pescados para eles, para a fome daquela primeira hora. Em um certo momento, João diz a Pedro: “Mas é o Senhor!”. Então, os olhos de todos se abrem e Pedro se joga na água, assim como está, e chega primeiro à margem. Depois vêm os outros. Colocam-se em círculo, em silêncio: ninguém fala porque todos sabem que é o Senhor. Sentados para comer, dizem alguma coisa entre si, mas estão todos intimidados pela presença excepcional de Jesus, Jesus ressuscitado, que já havia aparecido a eles em outras circunstâncias.
Simão, cujos muitos erros fizeram-no ser o mais humilde de todos, também sentado no chão em frente à refeição preparada pelo Mestre, olha quem está ao seu lado e, com maravilhamento e tremor, vê que é Jesus. Então, desvia o olhar dEle e fica assim, embaraçado. Mas Jesus lhe fala. Pedro pensa em seu coração: “Meu Deus, meu Deus, quanta repreensão merecida! Agora ele vai dizer: ‘Por que você me traiu?’.” A traição tinha sido o último erro cometido, mas sua vida inteira, apesar da familiaridade com o Mestre, tinha sido atribulada, por causa do seu caráter impetuoso, da sua imponência instintiva, do seu ir adiante sem cálculos. Ele via tudo de si mesmo à luz de seus defeitos. Aquela traição fez emergir nele, claramente, o resto dos seus erros, como ele não valia nada, como era fraco, fraco de dar pena. “Simão...” – imaginem o arrepio, enquanto aquela palavra soava lentamente no seu ouvido, tocando o seu coração –, “Simão...” – e aqui ele terá esboçado voltar o rosto para Jesus –, “... tu me amas?”. Quem teria esperado aquela pergunta? Quem teria esperado aquela palavra?
Pedro era um homem de 40 ou 50 anos, com família e filhos, e mesmo assim tão criança diante do mistério daquele amigo encontrado por acaso! Imaginemos como deve ter sentido traspassar-se por aquele olhar que o conhecia em cada detalhe. “Chamar-te-ás Cefas” (cf. Jo 1, 42): o seu caráter identificava-se com aquela palavra, “pedra”, e a última coisa que poderia imaginar era o que o mistério de Deus e o mistério daquele Homem – Filho de Deus – teriam feito com aquela pedra, daquela pedra. Desde o primeiro encontro Ele compreendeu todo o seu ânimo, todo o seu coração. Com aquela presença no coração, com aquela memória contínua dEle, ele olhava a mulher e as crianças, os colegas de trabalho, os amigos e os estranhos, cada pessoa e as multidões, e pensava e adormecia. Aquele Homem havia se tornado para ele uma grande, imensa revelação, ainda não esclarecida.
“Simão, tu me amas?” “Sim, Senhor, eu Te amo.” Como podia dizer isso depois de tudo o que havia feito? Aquele “sim” era a afirmação do reconhecimento de uma excelência suprema, de uma excelência inegável, de uma simpatia que arrastava todas as outras. Tudo estava inscrito naquele olhar, coerência ou incoerência finalmente pareciam passar para o segundo plano, atrás da fidelidade que sentia carne da sua carne, atrás da forma de vida que aquele encontro tinha plasmado.
De fato, não houve nenhuma repreensão. Resoou só a mesma pergunta: “Simão, tu me amas?” Não incerto, mas temeroso e tremendo, respondeu de novo: “Sim, eu Te amo”. Mas a terceira vez, na terceira vez que Jesus lhe faz a pergunta, ele teve que pedir a confirmação do próprio Jesus: “Sim, Senhor, Tu sabes, eu Te amo. A minha preferência humana é por Ti, toda a preferência do meu ânimo, toda a preferência do meu coração. Tu és a extrema preferência da vida, a excelência suprema das coisas. Eu não sei, não sei como, não sei como dizer isso e não sei como é possível, mas apesar de tudo o que eu fiz, apesar de tudo o que ainda posso fazer, eu Te amo.”
Esse “sim” é a fonte da moralidade, o primeiro sopro de moralidade no deserto árido do instinto e da pura reação. A moralidade aprofunda sua raiz no “sim” de Simão, e esse “sim” só pode se enraizar na terra do homem graças a uma Presença dominante, compreendida, aceita, abraçada, servida com todo o impulso do próprio coração, que somente assim pode voltar a ser criança. Sem Presença não há gesto moral, não há moralidade. Mas por que o “sim” de Simão a Jesus é a fonte da moralidade? Não são mais importantes os critérios de coerência ou incoerência?
Pedro havia aprontado de tudo, porém vivia uma simpatia suprema por Cristo. Entendia que tudo em si tendia a Cristo, que tudo se recolhia naqueles olhos, naquele rosto, naquele coração. Os pecados passados não podiam constituir uma objeção e, tampouco, toda a imaginável incoerência futura: Cristo era a fonte, o lugar da sua esperança. Mesmo se tivessem objetado com aquilo que ele havia feito ou com o que poderia fazer, Cristo continuava a ser, em meio às névoas daquelas objeções, a fonte de luz da sua esperança. E ele O estimava acima de qualquer coisa, desde o primeiro momento em que se sentiu fixar por Ele, olhado por Ele: amava-O por isso.
“Sim, Senhor, Tu sabes que és o objeto da minha simpatia suprema, da minha estima suprema”: assim nasce a moralidade. E, no entanto, a expressão é muito genérica: “Sim, eu Te amo”; mas é tanto genérica quanto geradora de uma diversidade de vida que se persegue.
“Quem tem essa esperança nEle, purifica-se a si mesmo, como Ele é puro” (1 Jo 3,3). A nossa esperança está em Cristo, naquela Presença que, embora distraídos e esquecidos, não conseguimos mais tirar – ao menos não até a última migalha – da terra do nosso coração, por toda a tradição em que Ele chegou até nós. É nEle que eu tenho esperança, antes de ter contado os meus erros e as minhas virtudes. Os cálculos numéricos não significam nada aqui. No relacionamento com Ele, o número não tem nada a ver, o peso medido e mensurável não significa nada, e toda a possibilidade de mal que pode se realizar em mim no futuro, ela também não tem a ver/ não significa nada, não consegue usurpar o título primário que o “sim” de Simão, repetido por mim, possui aos olhos de Cristo. Então, vem uma onda em nós, como um respiro que sobe do peito e inebria a pessoa inteira e a faz agir, a faz desejar agir de um modo mais justo: surge do fundo do coração, a flor do desejo de justiça, do amor verdadeiro, autêntico, da capacidade de gratuidade. Assim como o início de cada dia nosso não é uma análise do que os olhos vêem, mas um abraço do que o coração espera, a perfeição não é o cumprimento de leis, mas a adesão a uma Presença.
Somente o homem que vive esta esperança em Cristo continua sua vida inteira na ascese, no esforço para o bem. E mesmo quando ele é evidentemente contraditório, deseja o bem. Isso vence sempre, no sentido de que é a última palavra sobre si, sobre o próprio dia, sobre o que ele faz, sobre o que fez, sobre o que fará. O homem que vive esta esperança em Cristo continua na ascese. A moralidade é uma tensão contínua ao “perfeito”, que nasce de um acontecimento em que um relacionamento com o divino, com o Mistério, é marcado.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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