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Passos N.59, Março 2005

O MARAVILHAMENTO DE UM ENCONTRO

Do Batismo uma criatura nova

por Luigi Giussani

O pronunciamento ao Sínodo dos Bispos,
Roma, 9 de outubro de 1987; in L’avvenimento cristiano,
Bur, Milão 2003, pp. 23-25


Beatíssimo Padre, veneráveis Padres, 1. para tomar a palavra nesta sede, eu teria dificuldade ainda maior, se o tema do Sínodo não fosse antes de tudo concernente a alguma coisa que eu tenho em comum também com os leigos que aqui se encontram: o Batismo.

Uma observação de caráter geral
Que é o cristianismo senão o acontecimento de um homem novo que, por sua natureza, torna-se um protagonista novo no cenário do mundo? A questão eminente de todo o problema cristão é o acontecer, também para os leigos, da nova criatura da qual fala São Paulo. É a esse homem que são dadas tarefas e funções diversas: mas isto, no fundo, em comparação ao primeiro, é um problema secundário.
Com efeito, o conteúdo de todo compromisso cristão é aquele que se encontra na oração de Jesus: “Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho” (Jo 17,1).
2. O homem de hoje, dotado de possibilidades operativas como nunca na história, custa muito a perceber Cristo como resposta clara e certa ao significado de sua própria engenhosidade. As instituições muitas vezes não oferecem tal resposta de forma vital. O que falta não é tanto a repetição verbal ou cultural do anúncio. O homem de hoje espera, talvez de maneira inconsciente, a experiência do encontro com pessoas para as quais o fato de Cristo é uma realidade tão presente, a ponto de ter suas vidas mudadas. É um impacto humano que pode sacudir o homem de hoje: um acontecimento que seja eco do acontecimento inicial, quando Jesus olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Eu devo ficar na tua casa” (cf. Lc 19,5).
3. Deste modo, o mistério da Igreja, que nos é transmitido há dois mil anos, deve sempre reacontecer por graça, deve sempre resultar uma presença que move, isto é, movimento, movimento que por sua natureza torna mais humano o modo de viver o ambiente em que acontece. Para os que são chamados, acontece algo análogo àquilo que foi o milagre para os primeiros discípulos. A experiência de uma libertação do humano acompanha sempre o encontro com o evento redentor de Cristo: “Quem me segue terá a vida eterna, e o cêntuplo no presente” (cf. Mt 19,28-29; Mc 10,28-30; Lc 18,28-30).

Queria agora falar de uma história conseqüente
4. Tal como o Batismo é graça do Espírito, assim também toda realização do Batismo é dom do Espírito que se encarna no temperamento e na história de cada um.
Esse dom do Espírito pode comunicar-se com uma força particularmente persuasiva, pedagógica e operativa, a ponto de suscitar um envolvimento de pessoas, um âmbito de afinidade e de relações, em virtude do qual se realiza uma dinâmica estável de comunhão, “viver a qual é um aspecto da obediência ao grande mistério do Espírito” (João Paulo II, Sejais os mestres da cultura cristã, aos sacerdotes de Comunhão e Libertação, 12 de setembro de 1985; in La Traccia, 1985, p. 1083).
5. Assim surgiram os movimentos eclesiais. Eles são formas históricas com as quais o Espírito ajuda hoje a missão da Igreja como tal. Toda a pessoa do fiel fica investida por isso, tanto que daí floresce normalmente uma espiritualidade, uma posição cultural e uma capacidade de presença que facilita o sentimento de catolicidade plena, de modo que com o mesmo podem beneficiar-se dioceses, paróquias e ambientes.
Com efeito, quanto mais um carisma, mediante os instrumentos adequados, se refere à Igreja universal e desta relação se alimenta, tanto mais intensifica a sua força edificadora também na Igreja particular, que é o manifestar-se da Igreja católica em uma determinada porção do povo de Deus.
Nesse mundo dominado por uma cultura totalitarista, a Igreja particular, quanto mais insiste sobre si mesma, tanto mais corre o risco de ser insuficiente sozinha a gerar atitudes de respostas adequadas à moralidade.
6. A fim de que este movimento do Espírito realize concretamente a grande missão, dois fatores são necessários. O primeiro: a abertura total do carisma à Instituição eclesial e, portanto, antes de tudo a obediência ao bispo da Igreja particular na qual opera, chegando até a profunda mortificação; o segundo: um amor à liberdade do Espírito pelo qual o bispo saiba, além de suas próprias opiniões e expectativas, respeitar paternalmente a identidade do carisma, de modo a acolher as formas concretas que o mesmo carisma vai assumindo em sua diocese, como fator construtivo, até no plano pastoral.
7. A ordem da grande disciplina eclesial, álveo da liberdade operativa do Espírito, floresce na comunhão vivente com o sucessor de Pedro, lugar definitivo da paz para todos os fiéis.

(traduzido por Giovanni Vecchio)

 
 

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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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