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EDITORIAL

De quem vocês têm medo?

Pensávamos saber tudo sobre aquela noite. Os vinte e dois segundos de tremor. As ruínas. As vítimas. E os escombros, que já, entre tv e jornais, vemos e revemos há mais de um mês. O suficiente para ter vontade de ir além e dar espaço ao desejo mais verdadeiro do coração, aquele que se escancara um instante depois da grande – e dramática – pergunta sobre o “por quê”: o desejo de recomeçar. De reconstruir. Desejo que, por sua vez, é cheio de outras perguntas, tão dramáticas quanto. De onde? Como? Sobre o quê é possível reconstruir, se tudo aquilo que tínhamos foi perdido em um segundo?

A GRANDE SURPRESA COMEÇA AQUI. Na experiência imprevisível que estão fazendo muitos daqueles amigos de Abruzzo que perderam tudo. No seu olhar em volta e descobrir em si mesmos – ou no rosto de alguém, perto de si – algo que não foi destruído. Um terreno mais firme que a rocha de Áquila, sobre o qual apoiar os pés. Sobre o qual muitos já apóiam os pés. A fé. O reconhecimento da presença de Cristo, do seu abraço misterioso e imponente.
É possível ver isso de maneira clara nos mil testemunhos que chegam daquela terra ferida. E foi visto com uma clareza extrema no dia da visita de Bento XVI. Nos rostos jovens e serenos, quase contentes, que rodeavam o Papa em frente à Casa do Estudante. Na gratidão das pessoas pelo abraço de um Santo Padre mais pai que nunca. Não havia nada de sentimental naquele abraço. Havia a certeza da Ressurreição. De uma Presença mais forte que as ruínas e que a morte. Um amigo que participou daqueles encontros, os descreveu assim: “Foi como ver crianças assustadas por causa de um animal desconhecido e um pai que lhes vinha ao encontro dizendo: Do que vocês têm medo? Eu sei o que vocês viram, mas já foi vencido...”.

É SOBRE ESTE TERRENO que se joga uma partida decisiva: a verificação da fé. E, portanto, o florescer da esperança, daquilo que permite olhar o futuro sem medo porque certos, agora, daquela Presença. É uma partida que diz respeito a todos, não apenas ao povo ferido de Abruzzo. Diz respeito a nós diante do desafio daquilo que acontece, diante das provocações dos pequenos ou grandes terremotos que destroem a nossa vida cotidiana: o cansaço, as crises, a dor. Ou, ao contrário, a beleza, o irromper de um gosto imprevisto. Que sentido têm? O que indicam? Quem está nos chamando através dessas circunstâncias?

“PARA NÓS, AS CIRCUNSTÂNCIAS NÃO SÃO NEUTRAS, não são coisas que acontecem sem nenhum sentido; quer dizer, não são coisas apenas para serem suportadas, para serem padecidas impassivelmente. São parte da nossa vocação, da modalidade com a qual Deus, o Mistério bom, nos chama, nos desafia, nos educa. Para nós, estas circunstâncias têm a densidade de um chamado porque são parte do diálogo de cada um de nós com o Mistério presente”. Julián Carrón disse isso em uma passagem da Introdução dos Exercícios Espirituais pregados à Fraternidade de CL. O percurso parte daí, do desafio das circunstâncias. E se desenrola exatamente sobre a verificação da fé. Porque só aí se encontra o fundamento sobre o qual é possível construir. Ou reconstruir. Sempre.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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