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Passos N.68, Dezembro 2005

POESIA / ALESSANDRO MANZONI

O Natal de 1833,
misterioso desígnio

por Laura Cioni

No dia 25 de dezembro de 1833 morreu Enrichetta Blondel, esposa de Alessandro Manzoni. Para o escritor lombardo, é uma dor muito grande. Dor que aparece na tentativa de redigir um hino

Natal é tradicionalmente a festa da paz e da alegria. Mas há anos em que nesse dia aflora na alma uma dor mais aguda, porque percebemos com mais evidência, por exemplo, a falta de uma pessoa querida. Em alguns casos, a ferida dói tanto que obstrui todo o campo dos sentimentos e das reflexões: até o Natal, por isso, parece perder o brilho.
Algo parecido aconteceu com o grande poeta italiano Alessandro Manzoni: no dia de Natal de 1833 morre Enrichetta Blondel, a mulher com quem ele se casara e que lhe havia dado numerosos filhos, mas sobretudo a pessoa que com a sua espiritualidade o havia reaproximado do catolicismo, e a quem, portanto, responsabilizava – mesmo com toda a sua proverbial discrição – por uma parte não secundária da trajetória da sua conversão. O escritor, externamente impassível e tranqüilo, também teve que enfrentar uma grave provação de fé naquela circunstância, e temos alguns traços disso em duas tentativas de redigir um hino, intitulado justamente O Natal de 1833.

Uma luta
Justamente ele que, anos antes, havia dedicado ao Natal um poema – ainda hoje lido, de vez em quando, nas escolas italianas – que está no mesmo nível dos melhores hinos sacros, agora vê-se envolvido numa luta com as palavras, que só se fixam no papel despedaçadas, tendo que afastar expressões que não combinam com um estado de espírito abatido, sob o peso de uma provação difícil de sustentar. E é, no fundo, muito consolador assistir a essa luta das palavras e da paixão, uma luta tão difusa e tão próxima da experiência de muitas pessoas, talvez de todas.
O hino foi encontrado entre os papéis de Manzoni em duas versões: a primeira, escrita em 1833, compõe-se de 8 oitavas de setenários; a segunda, datada de 14 de março de 1835, mais breve, com apenas 5 oitavas. Mas quantos espaços vazios nessas duas composições, quanto silêncio, provavelmente pleno de dor e talvez até de angústia. Certamente esse não é o Manzoni da reconquistada certeza da fé, nem o cantor da Providência, mas um homem que se interroga sobre a ligação entre o Natal e a sua dor pessoal e só consegue resposta numa passagem do evangelho de Lucas: “Uma espada atravessará também a tua alma”: não por acaso as palavras proféticas do velho Simeão a Maria aparecem no rodapé da mais tardia das duas tentativas poéticas de Manzoni, numa espécie de identificação entre a dor de Maria e a sua.

Um Tu maiúsculo
Entre a primeira e a segunda redação passaram-se 16 meses de uma dor cada vez mais aguda porque cuidadosamente ocultada: quantas vezes terá retomado o esboço do primeiro hino, cuja primeira redação já é indicativa da dificuldade de usar as palavras:

Sì che tu sei terribile
Sì che tu sei pietoso
................
In quella cuna ascoso
...............
...... un decreto
In ogni tuo vagir.

(Sim, tu és terrível
Sim, tu és piedoso
berço oculto
um decreto
vagido.)
E assim também nas outras 16 oitavas, não raramente ainda mais incompletas. A quinta, por exemplo:

Onnipotente!........
...........................
..........................
..........................
.........................
..........................
Ti vorrei dir: che festi?
Ti vorrei dir: perché?

(Onipotente!
por que festejas?
por quê?)

E a última é só um suspiro, um grito, um lamento, não sabemos:

Cara!...............
.......................
......................
......................

(Cara!)

Algo mais – ou menos, dependendo do ponto de vista, doutrinal e objetivo, de um lado, ou sentimental e subjetivo, do outro – nos diz a redação mais breve e posterior:

1.
Sì che Tu sei terribile!
Sì che in quei lini ascoso,
In braccio a quella Vergine,
Sovra quel sen pietoso,
Come da sopra i turbini
Regni, o Fanciul severo!
E’fato il tuo pensiero,
E’legge il tuo vagir.

(Sim, Tu és terrível!
Naqueles linhos ocultos,
Nos braços daquela Virgem,
Apoiado naquele seio piedoso,
Como os furacões,
Reina, o Menino severo!
Está feito o teu pensamento,
O teu choro é lei.)
Não deve passar despercebido o Tu maiúsculo do primeiro verso: essa criança é um rei terrível, oculto e severo, cujo pensamento é inapelável, cujo choro é lei. Só o seio piedoso de Maria recorda a gruta, mas alude também ao sepulcro.

2.
Vedi le nostre lagrime,
Intendi i nostri gridi;
Il voler nostro interroghi,
E a tuo voler decidi.
Mentre a stornar la folgore
Trepido il prego ascende
Sorda la folgor scende
Dove tu vuoi ferir.

(Olhe as nossas lágrimas,
Entenda os nossos gritos;
O desejo das nossas perguntas,
E decida conforme tua vontade.
Enquanto demover o raio
Trêmula, a prece se eleva
Cego o raio desce
Onde queres ferir.)

Que guerra, aí, entre duas vontades; enquanto uma se faz oração que sobe para afastar um perigo, a outra se abate com um raio, pronto a ferir. É uma luta entre o homem e Deus, ou é também o emblema do Crucificado?

3.
Ma tu pur nasci a piangere,
Ma da quel cor ferito
Sorgerà pure um gemito,
Un prego inesaudito:
E questa tua fra gli uomini
Unicamente amata,
...........................
..........................

(Mas você também nasceu
chorando,
Daquele coração ferido
Também sairá um gemido,
Uma prece não ouvida:
E esta tua entre os homens
unicamente amada,)
4.
Vezzi or ti fa, Ti supplica
Suo pergolo, Suo Dio,
Ti stringe al cor, che attonito
Va ripetendo: è mio!
Un dì con altro palpito,
Un dì con altra fronte
Ti seguirà sul monte
E ti vedrà morir.

(Carinhos suplica
No púlpito, o Seu Deus,
Aperta contra o peito, que atônito
Vai repetindo: é meu!
Um dia com outra emoção,
Um dia com outra cabeça
Te seguirá sobre o monte
E te verá morrer.)

5.
Onnipotente!......
..........................
..........................
..........................

(Onipotente!)

Cecidere manus (caíram as mãos), ou aqui o poeta cala para sempre: é uma derrota ou a vitória de quem reconhece a onipotência de Deus e o adora? Não sabemos. Mas certamente aqui resta pouco da ternura do Natal, a que se rende também o Evangelho, a ternura de Francisco, e – por que não? – dos inumeráveis presépios que se sucederam na história da piedade cristã, das pastorais, das canções de ninar com que se embala o Menino Jesus.
Ao final de um ano em que estão ausentes tantas pessoas queridas, tantos desconhecidos morreram, vítimas de terremotos e furacões e desgraças, talvez não seja inútil, justo no Natal, deixar-nos questionar pelo misterioso desígnio que tudo domina e que se manifestou na doçura de um recém-nascido, em aparente imobilidade, mas na segura proteção dos braços de sua Mãe.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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