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DE SANTA MARTA

Quanto e como

por Papa Francisco
26/10/2015 - O resumo das homilias do Santo Padre durante as missas matutinas celebradas na capela Domus Sanctae Marthae

Homilia de 19 de outubro, publicada no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 22 de outubro de 2015

“A cobiça é uma idolatria” que deve ser combatida com a capacidade de compartilhar, de doar e de se doar aos outros. O tema delicado da relação do homem com a riqueza esteve no centro da meditação do Papa Francisco.

Partindo do trecho evangélico de Lucas (12, 23-21) que narra acerca do homem rico preocupado com a acumulação dos rendimentos da colheita, o Pontífice observou que “Jesus insiste contra o apego às riquezas” e “não contra as riquezas em si”: Deus, com efeito, “é rico” — ele mesmo “se apresenta como rico em misericórdia, rico de muitos dons” — mas “o que Jesus condena é exatamente o apego às riquezas”. Aliás, “afirma claramente” que é “muito difícil” que um rico, ou seja, um homem apegado às riquezas, entre no reino dos céus.

Um conceito, continuou o Papa, realçado de forma ainda mais forte: “Vós não podeis servir a dois senhores”. Neste caso Jesus, frisou o Santo Padre, não põe em contraposição Deus e o diabo mas Deus e as riquezas, porque “o oposto de servir a Deus é servir as riquezas, trabalhar pelas riquezas, para ter mais, para estar seguros”. Mas que acontece neste caso? Que as riquezas “se tornam uma segurança” e a religião uma espécie de “agência de seguros:’Eu estou garantido com Deus aqui e asseguro-me com as riquezas aqui’“. Mas Jesus é claro: “Isto não é possível”.

A este respeito, o Pontífice fez referência também ao trecho evangélico “do jovem tão bom que comoveu Jesus”, o jovem rico que foi embora “entristecido” porque não queria deixar tudo para o dar aos pobres. “O apego às riquezas é uma idolatria” comentou o Papa. De fato, estamos perante “dois deuses: Deus, o vivo, o Deus vivo, e este deus de ouro, no qual eu coloco a minha segurança. E isto não é possível”.

Também o trecho evangélico proposto pela liturgia “leva a isto: dois irmãos que discutem por causa da herança”. Uma circunstância da qual fazemos experiência também hoje: pensemos, disse Francisco, em “quantas famílias conhecemos que brigam, não se cumprimentam, se odeiam por causa de uma herança”. Acontece que “o que mais conta não é o amor da família, o amor dos filhos, dos irmãos, dos pais, não: é o dinheiro. E isto destrói”. Todos, está convicto o Papa, “conhecemos pelo menos uma família dividida assim”.

Mas a cobiça dá também origem às guerras: “sim, há um ideal, mas por trás há apenas o dinheiro: o dinheiro dos traficantes de armas, o dinheiro de quantos aproveitam da guerra”. E Jesus é claro: “Deem atenção e se mantenham distantes da cobiça: é perigosa”. A cobiça, com efeito, “dá-nos esta segurança que não é verdadeira e leva-nos, sim, a rezar, — podemos rezar, ir à Igreja — mas também a ter o coração apegado, e no final acaba mal”.

Voltando ao exemplo evangélico, o Pontífice traçou o perfil do homem do qual se está narrando: “Vê-se que era um bom homem, um empresário bem sucedido. O seu campo dava uma colheita abundante, estava sempre cheio de riquezas”. Mas em vez de pensar em compartilhá-las com os seus operários e com as suas famílias, raciocinava sobre como acumulá-las. Procurava-as “cada vez mais”. Assim “a sede do apego às riquezas nunca acaba. Se você tiver o coração apegado à riqueza — quando tens muitas —quer mais. E este é o deus da pessoa que está apegada às riquezas”.

Portanto, explicou Francisco, Jesus convida a estar atentos e a manter-se distantes da cobiça. E, não é por acaso, quando “nos explica o caminho da salvação, as bem-aventuranças, a primeira é a pobreza de espírito, ou seja, “não vos apegueis às riquezas”: “bem-aventurados os pobres de espírito”, os que “não são apegados” às riquezas. “Talvez as tenham — observou o Papa — mas para o serviço dos outros, para compartilhar, para fazer avançar muita gente”.

Alguém, acrescentou, poderia perguntar: “Mas, padre, como se faz? Qual é o sinal que me indica que eu não estou cometendo o pecado da idolatria, que não estou apegado às riquezas?”. A resposta é simples, e encontra-se no Evangelho: “desde os primeiros dias da Igreja” há “um sinal: dai esmola”. Porém, não é suficiente. Com efeito, se eu der aos que necessitam “é um bom sinal”, mas devo também questionar-me: “Quanto dou? O que me sobra?”. Neste caso “não é um bom sinal”. Ou seja, devo dar-me conta ao doar se me privo de algo “que talvez me seja necessário”. Naquele caso o meu gesto “significa que é maior o amor a Deus que o apego às riquezas”.

Portanto, sintetizou Francisco, “primeira pergunta: “Dou?”; segunda: “Quanto dou?; terceira: “Como dou?”, ou seja, comporto-me como Jesus doando “com a carícia do amor ou como quem paga uma taxa?”. E entrando mais em detalhe perguntou: “Quando ajuda uma pessoa, olha diretamente para ela? Toca a sua mão?”. Não se deve esquecer, disse o Pontífice, que quem temos à nossa frente “é a carne de Cristo, é seu irmão, é sua irmã. E você naquele momento é como o Pai que não deixa faltar a comida aos passarinhos do céu”.

Portanto, concluiu, “peçamos ao Senhor a graça de estar livres desta idolatria, do apego às riquezas”; peçamos-lhe “a graça de olhar para ele, tão rico de amor e de generosidade, e de misericórdia”; e também a graça “de ajudar os outros com a prática da esmola, mas como ele faz”. Alguém poderia dizer: “Mas, padre, ele não se privou de nada...”. Na realidade, é a resposta, “Jesus Cristo, sendo igual a Deus, privou-se disto, abaixou-se, aniquilou-se”.

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