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Passos N.108, Setembro 2009

RIO - SÃO BENEDITO

Um sinal em Copacabana

por Liziane Rodrigues

Construído no Rio de Janeiro, o Santuário de São Benedito dá testemunho de uma amizade que nasceu do amor a Cristo

Domingo de inverno. A neblina cobre o Morro dos Cabritos e deixa cinza a praia de Copacabana vista do alto. Laura Ribeiro ignora o frio, a garoa fina e a dificuldade para andar, imposta pelos 79 anos de idade e pela prótese no joelho. A aposentada chega para a missa das 9h sem se queixar da subida. Está contente por celebrar a Eucaristia perto de casa, no novo Santuário São Benedito. “Sou católica, não posso perder isso”, diz ela.
Tudo no lugar remete ao céu. A imagem dele se reflete no chão de granito, projetada a partir das janelas e parte do teto que são transparentes. No alto, acima do altar, a mata agitada pelo vento, revelada pela parede de vidro, faz com que a imagem de Cristo ressuscitado pareça estar sendo elevada ao céu naquele exato momento. No santuário, cada detalhe remete ao divino, fato que os moradores do Morro dos Cabritos já consideram uma evidência que se mostra além das paredes do templo. “O santuário, a escola de samba e a associação dos moradores são as três coisas que temos no morro”, elenca Carlos Henrique Jeremias, 47 anos. Na missa de domingo, ele ocupa um dos primeiros bancos da igreja, ao lado da mulher, Roseli Morethson, e das filhas Marina e Aline.
Ao meio-dia, quando o sino toca, as crianças fazem o sinal da cruz com as professoras, na sala de aula. O gesto, aprendido na Creche Cantinho da Natureza (uma obra da paróquia Santa Cruz, no Morro dos Cabritos), é repetido por elas em casa, nos finais de semana e nas férias. O primeiro santuário construído numa favela carioca é resultado de uma amizade entre padres do Movimento Comunhão e Libertação e do desejo de encontro despertado pelo amor a Cristo. A história e os primeiros frutos desta obra são contados por padre ENRICO ARRIGONI, pároco da Santa Cruz, nesta entrevista a Passos.

Por que um santuário no alto do morro, no meio de uma favela? Que significado ele tem para o lugar?
O desejo desta igreja nasceu da nossa companhia, do amor a Cristo. Naquela época éramos eu, o padre Filippo (Dom Filippo Santoro, hoje bispo de Petrópolis), o padre Giuliano Renzi, que era pároco da igreja da Santa Cruz (paróquia de Copacabana à qual pertence o santuário). Olhando a necessidade do povo que estava aqui, decidimos que a maneira mais imediata para respondermos a eles por meio da nossa unidade era ter um lugar onde pudéssemos nos encontrar. Nada melhor do que uma igreja. Já tinha uma capelinha ali no morro, mas ela tinha fendas nas paredes, era perigoso. Então, começamos a pensar uma igreja. Estamos falando do ano de 1996, um pouco antes do padre Giuliano voltar para a Itália. Giuliano se sacrificou muitíssimo por este morro. A creche, da forma como está aí, devemos a ele.

Como apenas um desejo tornou a construção possível?
Depois disso (da decisão de construir uma igreja) encontramos vários sinais da Divina Providência. Aconteceram coisas que normalmente seriam inacreditáveis. Por exemplo, o terreno sobre o qual construímos o Santuário era de um casal que estava separado há muitos anos. Ele viajou para Portugal, abandonou a esposa e os filhos aqui. Tivemos uma dificuldade enorme para entrar em contato. Descobrimos que ele tinha escrito um documento no qual deixava tudo para sua ex-esposa, inclusive este terreno. Chegamos a esta senhora que se comoveu com a ideia (de se construir um santuário) e nos vendeu a área por uma quantia simbólica. A partir daí começamos finalmente a procurar a empresa construtora. Encontramos um engenheiro de uma grande multinacional que não cobrou pelo trabalho, porque, muitos anos atrás, havia acompanhado o padre da Santa Cruz, ajudou a construir a igreja (sede da paróquia, instalada em um shopping). Este engenheiro acompanhou todo o trabalho do santuário sem pedir um centavo. Com ele trouxe um pupilo seu, um jovem a quem ajudou a se formar, e que nos cobrou uma taxa mínima pelos serviços da empresa construtora.
Muitos paroquianos contribuíram. A maior ajuda veio de amigos meus da Itália, de padres, dos bispos italianos, que deram bastante dinheiro por meio da Conferência Episcopal Italiana. Uma série de fatores confluiu nesta realidade.

A obra, desde a estrutura, é cheia de significados. Como isso foi pensado?
Esta foi outra coisa bonita do projeto: a parte fundamental foi feita por um arquiteto, o Dr. Rogério, que fazia parte do Movimento. No começo, foi ele que deu a ideia da posição da igreja. E também da grandeza, da dimensão. Por que as colunas são assim? Não precisaria. Mas foram projetadas assim para demonstrar a imponência e a solidez da igreja católica, representadas por dois grandes homens do nosso tempo: Dom Luigi Giussani e o Papa João Paulo II.

Por que o Cristo do altar não está na cruz, mas acima dela, ressuscitado?
Isso foi para mostrar que o fato determinante não é a cruz. O fato determinante da vida do cristão é a ressurreição. Passa pela cruz.

Que outros elementos do santuário são significativos?
Quem prestar atenção verá, alinhados, o altar, a cátedra (cadeira na qual o padre fica sentado e que representa a igreja, chefiada pelo papa), a cruz e Cristo ressuscitado. É uma expressão de unidade que permanece na história. Um fato histórico (a eucaristia e a cruz) que permanece hoje. Outra coisa interessante que faz parte da estrutura interna da igreja são as cores. No piso de granito, o vermelho do corredor, do espelho e das laterais é o Cristo que entra na história pelo cinza (cor do restante do piso), que representa o mundo, a história. Cristo entra na história, vai até o altar, que é branco e azul. Branco que significa a transfiguração do Senhor. Ele se transfigura na hóstia. O azul remete ao céu, ao paraíso, ao que a transfiguração nos remete.
A faixa vermelha não para no altar. Há um fio (pelas laterais) que leva o vermelho até a cátedra, com a mesma dimensão. Depois da transfiguração, hoje realizada por meio da cátedra, do padre, do papa, segue a cor vermelha porque a igreja continua tendo presente a cruz de Cristo e a Sua vitória (sobre a morte). Toda a igreja se move neste sentido. Depois, as janelas azuis para que as pessoas que participam da eucaristia percebam que são abraçadas pelo céu, pelo azul do céu.

Qual o significado da parede de vidro que chega ao teto, acima do altar?
Ela mostra o morro, verde. Significa a vitória de Cristo sobre a natureza, sobre a morte. A natureza que está atrás tem que saber que ela é redimida. Foi salva e está sendo redimida pela força da ressurreição. Depois tem o céu: o teto de toda a igreja possui uma entrada. Deixamos um espaço aberto de 50 a 60 centímetros para a entrada da claridade e do ar. Serve para que o ar quente suba e saia. Além da questão técnica, esta abertura representa o fato do azul, o céu, permanecer no mundo.
Outra coisa interessante é a capela do santíssimo. Sobre ela, no teto, há uma parte de azul mais intenso. Ali embaixo colocamos o ostensório, para adoração. A ideia é deixá-lo exposto 24 horas. Vamos começar fazendo a adoração todas as quintas-feiras, das 9h às 11h e, se der, a gente vai fazer isso 24 horas. É evidente que precisamos atender aos termos: alguém que fique sempre no local para poder haver adoração. Vi que o nosso povo gosta muitíssimo de adorar o santíssimo também à noite. Hoje, em Copacabana, fazem isso.

O povo do Morro dos Cabritos já percebe que aqui existe um santuário? Se dá conta que não foi construída apenas uma nova capelinha, no lugar da que tinham antes?
Pela gratidão que encontrei, pela resposta deles, se dão conta, sim. Agora, entre o fato de se dar conta e se deixar educar para esta coisa, aí é um tempo que a Divina Providência vai resolver. Ao meu ver, é importante que ninguém tenha protestado, dito algo. Fora alguém que questiona se não poderia dar o dinheiro aos pobres – como existia até nos tempos de Jesus –, todos os outros ficaram contentes. Para o morro todo este lugar se chama capela. É a referência, porque aqui existia uma capela dedicada a São Benedito. Quando falamos em derrubá-la para construir o santuário, alguns moradores ficaram desconfiados. Eu disse que a capela não sairia daqui e, quando viram que a obra estava mesmo andando, vieram me pedir desculpas. O morro nunca se sentiu partícipe da realidade da paróquia. E a paróquia, lá em baixo, nunca se sentiu partícipe daqui. Os primeiros que vieram tentaram realizar a unidade entre o morro e o asfalto, o que sempre era uma fantasia. Durante o auge da Teologia da Libertação chegaram a pensar que colocando água e esgoto nas casas as pessoas viriam para a igreja. Isso não aconteceu. De fato, isso se tornou real com a construção do santuário.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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