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OS FATOS

No Burundi, para que a vida se cumpra

03/10/2016 - A fadiga de estar em um País estrangeiro, o relacionamento com uma mãe solteira, a morte de um recém-nascido. Uma enfermeira italiana na África conta porque foi para lá e porque decide voltar para lá: “Para experimentar a vertigem de Jesus”
Ngozi, Burundi.
Ngozi, Burundi.

“Para que a minha vida se cumpra e o mundo Te reconheça”. Quando anunciei que teria ido para a missão, os meus amigos me perguntaram muitas vezes o porquê desta escolha, por que justamente a África, por que justamente o Burundi; e esta oração, que aprendi no curso ginasial e que rezo todas as noites, sempre me pareceu a resposta mais exaustiva e mais verdadeira a todas as perguntas deles: “Para que a minha vida se cumpra e o mundo Te reconheça”, meu bom Jesus.

Certo, não era senão uma pequena intuição naquela época. Mas a possibilidade de que na África o pedido de minhas orações pudesse tomar forma de verdade me fizera responder “sim” a uma proposta que parecia quase louca. Ao menos em parte esta oração se concretizou no extraordinário cotidiano de minhas jornadas burundianas, com uma simplicidade e uma evidência que me deixaram muito espantada; porque foi simples descobrir e conhecer a mim mesma, e foi evidente que tudo o que eu fui capaz de fazer não foi possível – e não o é todavia – devido às minhas capacidades, mas por graça.

Sou uma grande tagarela, admito-o, e sempre pensei que o modo com o qual eu era mais capaz de ajudar os meus amigos no momento da necessidade fosse a palavra certa no momento certo. Com a minha formação de obstetra esta capacidade eu tinha bem aprimorada. Mas, chegando à África, de um dia para o outro me encontrei não sendo mais capaz de falar com as mães que vinham para consulta e exames delas e de seus recém-nascidos, porque a maior parte da população burundiana fala só e exclusivamente o Kirundi, a língua local; este primeiro impacto me causou muita dificuldade e frequentemente me perguntava: Jesus, como posso dar testemunho do teu amor infinito por mim se não posso nem mesmo perguntar a estas mulheres como estão?

Pois bem, a resposta chegou pronta e evidente: depois de poucos dias as mães ao final da consulta me abraçavam, me reconheciam nos corredores e contavam aos enfermeiros como a muzungu (a "branca") tinha lhes devolvido esperança e alegria. O que de tão extraordinário eu tinha feito para elas? Absolutamente nada! Simplesmente eu as tratava e aos meninos delas com cuidado, o mesmo cuidado e o mesmo amor com que eu fui olhada desde pequena pelos meus pais e pelos meus amigos, nada mais; isto era suficiente para surpreender as mulheres e fazer nascer nelas gratidão e reconhecimento. É mesmo verdade que somente se somos olhados com um olhar de amor, que é o olhar de Deus sobre nós, podemos olhar os outros com igual amor, como ocorreu com Maria Goretti.

Maria Goretti é uma mocinha de 14 anos, vive com a mãe e o companheiro da mãe em meio à floresta, em uma das colinas que circundam a cidade de Ngozi, onde se encontra o hospital em que eu trabalhava. Eu a conheci quando ainda estava grávida, já no final da gravidez, provavelmente derivada de uma violência. Depois do parto, veio para os exames da sua menina e logo nasceu uma simpatia entre nós. Começou a sorrir, coisa que – conforme ela mesma disse – não fazia há muito tempo. Para não perder a possibilidade que ela significava para mim, eu e Israel, o enfermeiro que tinha assistido o parto, decidimos ir visitá-la na sua cabana, com a desculpa de observar se a menina estava crescendo bem. Desde o primeiro momento em que chegamos não parou nunca de sorrir, e a coisa que mais me comoveu foi observar que, enquanto anteriormente ao amamentar não olhava a sua menina, agora a segurava nos braços e a acariciava com um afeto realmente materno.

Também para mim foi necessário aprender de novo esta ternura, para não cair na escuridão do cinismo. Um dia, fiquei uma hora ajudando uma mãe a espremer o leite para dá-lo ao seu menino que, internado no setor neonatal, não tinha a força de mamar no seio para alimentar-se; no dia seguinte o menino morreu. O meu primeiro pensamento foi pensar que tivesse sido um esforço inútil, tempo desperdiçado. Descobri-me terrivelmente cínica, mas ao mesmo tempo a resposta ao meu cinismo estava ali, pronta e evidente, tão simples a ponto de ser desarmante: Israel ao meu lado começou a chorar diante da morte, tão misteriosa, de um menino pequeno. Que graça! Que graça que um segundo após ter descoberto ser cínica, feia pelo meu pensamento desviado, Deus tinha colocado ao meu lado uma pessoa que me reconduzia ao modo mais verdadeiro e grandioso de olhar para um fato tão trágico, com uma ternura incrível.

Experimentei a vertigem de Jesus que se faz presente na vida cotidiana, e permite que você descubra um pedacinho da vocação para a qual o chama. Depois de ter provado tal vertigem, não se pode mais dispensá-la, até mesmo se o coloca em frente a uma brutalidade desarmante, como ocorreu comigo não apenas nas circunstâncias que encontrei, mas também naquilo que descobri sobre mim. Descobri-me capaz de um cinismo inimaginável, mas logo fui reconduzida a um modo verdadeiro e humano de olhar as coisas, logo fui perdoada.

Portanto, quando os meus amigos me perguntam por que quero voltar, a resposta é sempre a mesma: “Para que a minha vida se cumpra e o mundo Te reconheça”. É por isto que quero voltar, por isto e por nada de menos.

Maria Chiara, Ngozi (Burundi)

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