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HISTÓRIA

Partir do presente

por Marina Massimi
01/02/2011 - “O homem, para compreender os fatores pelos quais é constituído, deve partir do presente. Se percebo esses fatores agora, posso projetar-me no passado e descobri-los nas páginas de Homero, de Platão, de Virgílio, de Dante...”.
Henri Matisse. <em> Ícaro</em>, em <em>Jazz</em>, 1947.
Henri Matisse. Ícaro, em Jazz, 1947.

Na última edição, vimos que o estudo da história responde à exigência de busca do significado do tempo, uma vez que a busca do sentido é característica própria da razão humana (cf. Giussani, L. O senso religioso. São Paulo, Companhia Ilimitada, 1993 [2ª ed.]).

Mas como atingir através do estudo o conhecimento racional dos fatos históricos? Como poderemos através do estudo da história alcançar a realidade do passado?

Antes de mais nada, ao empreendermos o estudo da história, que normalmente se realiza através da leitura de um texto historiográfico (manual, obra monográfica, artigo de revista especializada na área, etc.), devemos recuperar o uso de nossa capacidade racional.

Esta afirmação, aparentemente elementar, contém várias implicações.

1. Em primeiro lugar, ela significa que o nosso objetivo, ao estudar a história, deve ser, conforme afirma o historiador francês H. I. Marrou, lançar “sobre o passado um olhar racional que compreende, capta e (em certo sentido) explica”. Segundo o mesmo autor, “essa inteligibilidade deve ser verdadeira, e não imaginária, e encontrar a sua razão na ‘realidade’ do passado humano.” (Marrou, H. I. Sobre o conhecimento histórico. Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p. 40).

2.Uma segunda dimensão da construção deste conhecimento é a consciência de seus limites. A razão humana não consegue abarcar todos os fatores da realidade do passado. Nesse sentido, o conhecimento histórico sempre será parcial, como apontam atualmente vários historiadores, entre outros Paul Veyne e H. I. Marrou. Citamos a seguir um trecho de Marrou que expressa bem esta posição:
“A história é o Passado, na medida em que podemos conhecê-lo. A história é um combate do espírito, uma aventura e, como todas as proezas humanas, só alcança sucessos parciais, inteiramente relativos, que não são proporcionais à ambição inicial: como de todo combate travado com as desconcertantes profundidades do ser, o homem dela retorna com um agudo sentimento de seus limites, de sua fraqueza, de sua humildade” (Marrou. Op. cit., p. 48).
Ter consciência do limite do conhecimento histórico significa, portanto, reconhecer a existência de “uma desproporção fundamental entre o objeto a que se prende a história, essa realidade histórica total que só Deus pode apreender, e os meios limitados de que ela dispõe, os pobres e pequenos esforços do espírito humano, seus métodos, seus instrumentos” (Marrou, Op. cit., pp. 49-50).
O reconhecimento da limitação do conhecimento histórico nos sugere então uma modalidade crítica de “ler” a obra histórica que achamos na biblioteca ou adquirimos na livraria da moda, ou o manual de história que utilizamos na escola, ou na universidade: não podemos esquecer que se trata de um conhecimento parcial, incompleto, e inevitavelmente limitado pela perspectiva do autor, como outro importante historiador contemporâneo, G. Duby, sugere neste texto:
“Os historiadores não são detectores inertes, lêem com olhos sempre novos os mesmos documentos (...). A maioria dos achados provém desse fermento de fantasia que leva o historiador a afastar-se dos caminhos muito batidos. Provém de seu temperamento, vale dizer, daquela mesma personalidade que a estrita moral positivista pretendia neutralizar” (Duby, G. A História continua. Rio de Janeiro, Zahar, 1994, p. 58).

3. Em terceiro lugar, se a leitura de uma obra histórica pede-nos necessariamente uma atitude crítica, esta atitude crítica por sua vez nasce de uma certa maneira de elaborarmos o nosso conhecimento. Se, como afirma Giussani, todo conhecimento brota da relação entre o meu eu e o objeto fora de nós, é “o encontro entre uma energia humana e uma presença, um acontecimento no qual a energia da consciência humana assimila-se a um objeto” (Giussani. Op. cit., p. 25), então o estudo da história pode ser um exercício para aprender o que isto significa.
Ao estudarmos a história, como é que este encontro com um objeto do passado se torna possível? Podemos comparar o estudo da história a uma viagem a um país muito diferente do nosso, a Terra do Passado, sendo o historiador - ou o autor do livro que nos transmite o conhecimento da realidade histórica específica que é objeto de nosso interesse - uma espécie de timoneiro do navio em que atravessamos o oceano do desconhecido, rumo ao destino visado. Uma vez a bordo, ao longo da travessia temos a oportunidade de conhecer melhor o nosso timoneiro, de verificar se ele é um sujeito confiável. Só poderemos responder a estas questões a partir dos indícios que vamos coletando ao longo da convivência quotidiana com ele no navio. Por outro lado, podemos observar diretamente o trabalho do timoneiro: como ele alcança o conhecimento que lhe é necessário para tomar as decisões necessárias acerca da navegação? Como ele chega a alcançar a certeza da rota? Toda a sua atividade norteia-se pela percepção e a interpretação de sinais. Se o navegador for experiente, ele demonstrará uma boa capacidade de escolher os sinais certos, de captar seu sentido, de interpretá-los. Por exemplo, nunca se deterá na observação de um sinal sem considerar o contexto global de sua ocorrência. Trata-se então de um conhecimento racional, rigoroso, e que busca a certeza (caso contrário, o navio afundaria!).

4. No caso do itinerário do estudo histórico, os sinais disponíveis são as fontes, ou seja, os documentos históricos, que são utilizados pelo historiador para penetrar no conhecimento do mundo do passado. A abordagem destes documentos acontece seguindo a mesma modalidade que utilizamos no âmbito dos relacionamentos humanos, conforme assinala Marrou: “Nada existe de específico na compreensão relativa ao passado; é exatamente o mesmo processo que é posto em atividade pela compreensão de outra pessoa no presente” (Marrou. Op. cit., p. 70). Com efeito, os documentos históricos são testemunhos da experiência de homens do passado, como afirma Ph. Ariès:
“O testemunho não é o relato indiferente de um observador que enumera ou de um cientista que desmonta, mas uma comunicação, um esforço apaixonado para transmitir aos outros que contribuem para a história a sua própria emoção da história. Lembra essa necessidade de confidência do homem emocionado por uma grande dor, uma grande alegria ou espezinhado pela preocupação. E, nesta comunicação com os outros, não se trata de uma demonstração teórica, mas de fazer passar de verdade a minha vida para você, (...) minha maneira de ser e de sentir tal como ela se formou no interior de uma civilização” (Ariès, Ph. O tempo da História. São Paulo, Francisco Alves, 1989, pp. 87-88).
O método de conhecimento histórico corresponde, em suma, ao que Giussani define como o “método da certeza moral”, o método racional de conhecimento que diz respeito ao conhecimento do comportamento humano:
“Como método, este é muito mais comparável ao método do gênio e do artista; estes chegam à percepção do verdadeiro a partir de sinais. (....) O verdadeiro não é fixado mecanicamente, mas é intuído pela inteligência como único sentido razoável, único motivo adequado para explicar a convergência de determinados ‘sinais’. Multipliquem indefinidamente estes sinais, às centenas, aos milhares. O ponto de encontro dos sinais mostra seu sentido adequado. (...) A demonstração para atingir uma certeza moral é um complexo de indícios cujo único sentido adequado, cujo único motivo adequado, cuja única leitura razoável, é esta certeza” (Giussani. Op. cit., p. 42).
A demonstração que fundamenta o conhecimento histórico baseia-se neste mesmo procedimento. Este procedimento, por sua vez, depende da posição humana do sujeito que o realiza. Giussani, ao falar do conhecimento moral, coloca dois destaques importantes, que são válidos também no caso do historiador.
4.1. O primeiro é que “eu estarei tanto mais habilitado a ter certeza sobre você quanto mais atento eu for à sua vida, isto é, quanto mais compartilhar sua vida. Nesta medida, os sinais se multiplicam” (Idem, ibidem. p. 43). Isto significa, para o historiador, a necessidade de mergulhar no universo mental, social, cultural no qual foram produzidos os documentos objeto de sua investigação.
4.2. O segundo destaque é que, “inversamente, quanto mais alguém é poderosamente homem, mais é capaz de atingir a certeza sobre o outro a partir de poucos indícios. Quanto mais alguém é potente em sua humanidade, mais tem a capacidade de perceber tudo com certeza. É como se o homem fizesse uma comparação rápida consigo mesmo, com a própria ‘experiência elementar’, com o próprio ‘coração’ e dissesse: até aqui confere, por isso, é verdade e posso confiar” (Idem, ibidem. pp. 43-44).

5. Isto significa que o que torna fecundo o estudo da história não é tanto uma erudição ou conhecimento técnico, mas uma curiosidade atenta e uma paixão pelo humano, pela humanidade nossa e do outro. Esta curiosidade e esta paixão podem fazer com que, por exemplo, um dia de aula ou algumas horas de estudo tenham o nosso eu como protagonista, e não como passivo receptor.
De onde brotam esta curiosidade e esta paixão?
5.1. Em primeiro lugar, de uma afinidade com o objeto, como Marrou evidencia: “Só somos capazes de compreender aquilo que, numa medida bastante ampla, já é nosso, fraternal; se o outro fosse completamente dessemelhante, cem por cem estranho, não se vê como a sua compreensão seria possível” (Marrou. Op. cit., p. 71). Se a experiência que eu vivo me educa a dilatar a minha humanidade, ela me faz reconhecer que, por exemplo, a admiração que experimento perante a visão de uma catedral românica nasce de uma correspondência entre a minha exigência de beleza e a dos homens que muitos séculos atrás construíram este monumento arquitetônico. Da intuição da correspondência nasce o interesse por conhecer a experiência do mundo que soube criar esta obra. E se na escola ensinaram-me que este mundo era uma “idade de trevas e de ignorância”, a contraditoriedade entre este juízo e o “que eu vejo” acende ainda mais minha curiosidade.
5.2. Em segundo lugar, a curiosidade e a paixão pelo estudo da história nascem de uma atenção ao nosso presente. Com efeito, o estudo da história não é um fim para si mesmo, nem é uma saudosa volta ao passado sem retorno, uma fuga intelectual e estética dos desafio do tempo atual. Não se trata também de compreender o presente colocando-o numa perspectiva evolucionista ou historicista, como se a história pudesse explicar e julgar a existência atual do homem. Pelo contrário, afirma Giussani, “o homem, para compreender os fatores pelos quais é constituído, deve partir do presente. Seria um grave erro de perspectiva partir do passado para conhecer o presente do homem. (...) Tal pretensão de partir do passado significaria, porém, não conseguir evitar uma imagem ‘presente’ do próprio passado, arriscando-se, desta forma, a identificá-lo com a concepção fabricada hoje. Só diante da consciência do meu presente me é possível ter em conta a fisionomia humana nos seus elementos e na sua dinâmica naturais - e, por isso, também identificáveis no passado. Mas, se percebo agora os fatores da minha experiência de homem, posso projetar-me no passado e descobrir os mesmos fatores reconhecíveis nas páginas de Homero ou dos filósofos eleáticos, ou de Platão, ou de Vergílio, ou de Dante; e isto confirmará a grande unidade da estirpe humana, e se tornará realmente experiência de civilização que cresce e se enriquece. Quando parte do presente para surpreender a experiência humana em seus fatores constitutivos, o estudo do passado ilumina sempre mais esse olhar que dirijo a mim mesmo. Mas, antes de ter acesso ao enigma do passado, devo ter em mãos, ainda que apenas vislumbrados, os fatores luminosos da minha personalidade presente” (Giussani. Op. cit., p. 70).
Assim, somente porque eu vivo hoje a experiência da catolicidade, uma visita às igrejas de Ouro Preto ou a leitura dos Sermões de António Vieira pode ecoar em mim o ritmo de uma sinfonia da qual eu também sou uma nota, não a melancólica admiração por uma harmonia perdida, mas o potenciar-se da certeza do Verbo Eterno encarnado, em mim, no meu aqui e agora. “Depois que o Eterno se fez temporal, também o Amor divino tem dias” (Vieira, A. Sermões. Porto, Editora Lello e Irmão, 1951, vol. IV, p. 318): conhecer e amar os “dias” desta Presença, o Seu encarnar-se no tempo e no espaço é, no fundo, o desejo que mais eficazmente pode nos mover e conduzir naquela longa viagem que, numa tarde ensolarada e barulhenta, nos faz mergulhar na leitura de uma página do livro de história.

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